sábado, 10 de abril de 2010

INFERNO

Quer saber como é o inferno?


Concluindo-se que tanto faz onde, como ou com que cara exista o inferno, pois cada um lá o verá com os olhos com os quais viu a vida aqui. Portanto, o que se pode dizer é tão-somente isto a quem se recusa a converter-se ao convite da Graça de nosso Deus em Jesus Cristo:

"Feliz eterna escolha pela sua própria e livre escolha por fazer do inferno seu próprio ser experimentando a você mesmo. Assim, infelizes dos arrogantes, porque eles serão humilhados. Infelizes os perversos, porque eles ficarão sem inimigos. Infelizes os insensíveis, porque eles chorarão para sempre. Infelizes os opositores do bem, porque terão que assistir à manifestação do bem para sempre e sem poderem fazer nada contra. Infelizes os criadores de divisões e discórdias, pois eles serão para sempre lembrados como filhos do diabo. Infelizes dos que apedrejaram os profetas, pois terão que ouvir o eco eterno de suas próprias condenações.

E infelizes dos que infelicitaram a todos os que amaram o reino de Deus, pois assim saberão o significado de existir inalteráveis, como o diabo e seus anjos. Mas assim como são as bem-aventuranças são as "mal-aventuranças". E assim também como o coração do homem deve corresponder à sua face, assim também o inferno do homem sempre corresponderá ao cenário de sua própria alma.

Caio

EM DEUS TUDO FALA...

Deus criou porque não pensou somente em Si Mesmo, pois a criação é Deus pensando em outros; em todos os outros infinitamente possíveis...

Portanto, na criação temos múltiplas e infindas formas de expressão de Deus e de Sua Palavra/Verbo; visto que todas as coisas foram criadas pela Palavra de Deus; e, por tal razão expressam a Sua Palavra de modo pessoal e impessoal.

Hoje em dia estou a ponto de quase duvidar da impessoalidade de qualquer coisa que seja criatura na criação.

Faço o Caminho nesse sentido inverso ao de Sidarta; pois se o seu Nirvana era o Mar da Impessoalidade, para mim é o oposto; pois, sendo Deus amor, suspeito que de um modo que para mim tem que se estabelecer como negação do meu pensar como absoluto de modo de pensar; fazendo o mesmo eu com o homem, como se o que é raciocínio para o homem seja a única forma de raciocinar — fico, portanto, aprisionado pela idéia de que tudo tem sua própria fala e modo de ser em e para Deus; e não apenas como existência que existe sem existir como ente existente.

Assim é que na Escritura todo ser que respira louva o Senhor, tanto quanto todos os astros dos céus, todas as criaturas, de todas as dimensões; de lesmas gosmentas a anjos ricos em força, poder e majestade.

A Escritura diz que se Deus pensasse só em Si Mesmo, toda a existência se dissolveria.

Assim, se há existência [...] é porque há Deus pensando em todas as criaturas de todos mundos conhecidos e desconhecidos, visíveis e invisíveis.

Por isto se diz que a Sua Palavra se faz ouvir em toda a Terra e que é também percebida nos confins do mundo; posto que dia, noite, fala, sonho; sol e lua, luz e trevas; ventos procelosos e cicios suaves; bem como monstros marinhos e abismos todos; e toda sorte de existência impensáveis e alienígenas, como seres de quatro faces e oito asas, com feições humanas e animais ao mesmo tempo, e que são acompanhados por rodas que giram em si mesmas, mas que obedecem a um comando de natureza espiritual [conforme Ezequiel]; ou ainda, como se diz: com árvores aplaudindo, mares cantando, ribeiros louvando; com todos os pássaros em sinfonia; sim, com jumentos profetizando, pedras falando, e até homens e mulheres de vez em quando conseguindo expressar Deus, especialmente quando amam mais do que falam —; o fato é que Deus fala; e fala sempre; e nunca até hoje deixou de falar; de falar a todos os homens, em todos lugares; usando os meios e modos disponíveis; por vezes sonhos, outras vezes impressões, intuições; ou ainda mediante as estrelas e seus estranhos caminho que um dia levaram três homens até a uma manjedoura onde Deus mais uma vez pensava apenas nos outros.

Sim, Deus fala!

Fala quando é gostoso, mas fala mais ainda quando é amargo; fala muito no nascimento, mas muito mais profundamente na morte; fala na conquista, mas incomparavelmente fala Ele nas derrotas e perdas.

Eu, no entanto, não tenho como não ouvir a Sua Voz em tudo.

Cada dia mais ouço Sua Palavra em tudo e todas as coisas.

Vejo Luz onde antes eu só via trevas; vejo Trevas onde antes eu só via luz; e vejo que para Ele as trevas e a luz são a mesma coisa!

Hoje ouço Sua voz na Desgraça como Graça e na Graça como Amor.

Sim; hoje sei que tudo existe Nele com propósito e com carga de louvor; e que tudo o que existe fala Dele; sim, até quando parece ser uma Calamidade.

Digo isto porque não há criação sem caos; e nem há caos sem a entrega de Deus como Cordeiro para propiciar todas as possibilidades de ser Nele e para Ele; ainda que para o sentir finito e moral como o meu, por vezes o que Deus chame de “minha vontade”, “ou de minha entrega”, eu perceba ou chame de caos e de morte.

Nele, em Quem tal mergulho somente me enche de alegria e vida,

Caio
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Para ler mais textos e reflexões como esta visite:

http://www.caiofabio.net/

sexta-feira, 9 de abril de 2010

Cultura, arte e diversão

Muito antes do computador moderno, das placas gráficas e mesmo da modelagem 3D, existia um artista. O seu nome é Maurits Cornelis Escher... Mas quem é esse cara? Bom é melhor deixar suas ilustrações falarem por ele. Click nas imagens para ver em tamanho maior.







Não é fabuloso até mesmo para atualidade?

Veja essa animação em homenagem a ele:




Veja essa também:

http://www.youtube.com/watch?v=ukdpt7ZrUJA&feature=related

Para saber mais, consulte:

http://pt.wikipedia.org/wiki/Maurits_Cornelis_Escher

quarta-feira, 7 de abril de 2010

A ponte entre a Ciência e a Religião

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Aviso...

Sempre use o espírito crítico, buscando sempre a verdade, mas não afunde no ceticismo duvidando de tudo. Prove de tudo, retenha o que for bom!

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A ponte entre a Ciência e a Religião

transcrição completa da entrevista concedida pelo físico Amit Goswami ao programa "Roda Viva" da TV Cultura.

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O Roda Viva entrevista o físico nuclear indiano AMIT GOSWAMI. Considerado um importante cientista da atualidade ele tem instigado os meios acadêmicos com sua busca de uma ponte entre a ciência e a espiritualidade. Amit Goswami vive nos Estados Unidos. É PHD em física quântica e professor titular de física da Universidade de Oregon. Há mais de quinze anos está envolvido em estudos que buscam construir o ponto de união entre a física quântica e a espiritualidade. Já foi rotulado de místico, pela comunidade científica, e acabou acalmando os críticos através de várias publicações técnicas a respeito de suas idéias. Em seu livro O UNIVERSO AUTOCONSCIENTE - publicado no Brasil - ele procura demonstrar que o Universo é matematicamente inconsistente sem a existência de um conjunto superior - no caso, DEUS. E diz que, se esses estudos se desenvolverem, logo no início do terceiro milênio Deus será objeto de ciência e não mais de religião.

A bancada de entrevistadores será formada por Mário Sérgio Cortella, filósofo e dir.em educação, prof. do Depto. Teologia e ciências religião da Puc SP; Cláudio Renato Weber Abramo, jornalista e mestre em filosofia da ciência; Pierre Weil, educador e reitor da Universidade Holísitica Internacional de Brasília; Rose Marie Muraro, escritora e editora; Leonor Lia Beatriz Diskin Pawlowicz, jornalista e Pres.da Assoc. Palas Athena; Joel Sales Giglio, psiquiatra, ex chefe do Depto.de Psic. Médica e psquiatria da Unicamp, analista junguiano da Assoc. Junguiana do Brasil e membro da International Assossiation for Analitical Psychology; Carlos Ziller Camenietzki, físico, dr. em filosofia e pesquisador do Museu de Astronomia do Min. da Ciência e Tecnologia.

Heródoto Barbeiro: Dr. Amit Goswami, Boa Noite. Inicialmente eu gostaria que o senhor dissesse aos telespectadores da TV Cultura, que ao longo do século XX os cientistas estiveram ligados muito mais ao materialismo do que à religiosidade. A impressão que eu tenho é que nessa virada para o século XXI, essas coisas estão mudando. O senhor poderia nos explicar o porque dessa aproximação entre a ciência e a espiritualidade?

Amit Goswami: Com prazer. Esta mudança da ciência, de uma visão materialista para uma visão espiritualista, foi quase totalmente devida ao advento da Física Quântica. Ao mesmo tempo, houve algumas mudanças em Psicologia transpessoal, em Biologia evolucionista, e em medicina. Mas acho que é correto dizer que a revolução que a Física Quântica causou na Física, na virada do século, seria baseada nessas transições contínuas, não apenas movimento contínuo, mas também descontínuo. Não localidade. Não apenas transferência local de informações, mas transferência não-local de informações. E, finalmente, o conceito de causalidade descendente. É um conceito interessante, pois os físicos sempre acreditaram que a causalidade subia a partir da base: partículas elementares, átomos, para moléculas, para células, para cérebro. E o cérebro é tudo. O cérebro nos dá consciência, inteligência, todas essas coisas. Mas descobrimos, na Física Quântica que a consciência é necessária, o observador é necessário. É o observador que converte as ondas de possibilidades, os objetos quânticos, em eventos e objetos reais. Essa idéia de que a consciência é um produto do cérebro nos cria paradoxos. Em vez disso, cresceu a idéia de que é a consciência que também é causal. Assim, cresceu a idéia da causalidade descendente. Eu diria que a revolução que a Física Quântica trouxe, com três conceitos revolucionários, movimento descontínuo, interconectividade não-localizada e, finalmente, somando-se ao conceito de causalidade ascendente da ciência newtoniana normal, o conceito de causalidade descendente, a consciência escolhendo entre as possibilidades, o evento real. Esses são os três conceitos revolucionários. Então, se houver causalidade descendente, se pudermos identificar essa causalidade descendente como algo que está acima da visão materialista do mundo, então Deus tem um ponto de entrada. Agora sabemos como Deus, se quiser, a consciência, interage com o mundo: através da escolha das possibilidades quânticas.

Rose Marie Muraro: O que mais me espanta na Física é o problema da medição quântica de Heisemberg, que voce, realmente, acha que deve ter um observador olhando e que modifica a realidade, por exemplo, transforma a onda em partícula. Eu gostaria de saber... isso aí houve uma grande briga de Einstein com Niels Bohr. Eu gostaria de saber, em escala cósmica, onde não há observadores, se há um observador supremo, na sua opinião, e se ele cria matéria ou como se faz esse fenômeno?

Amit Goswami: Essa é a questão fundamental, Rose Marie, porque.. qual é o papel do observador? É a pergunta que abre a integração entre Física e espiritualidade. Na Física Quântica, por sete décadas, tentou-se negar o observador. De alguma forma, achava-se que a Física deveria ser objetiva. Se dessem um papel ao observador, a Física não seria mais objetiva. A famosa disputa entre Böhr e Einstein, a que se refere essa disputa, basicamente, sempre terminava com Bohr ganhando a discussão, mostrando que não há fenômeno no mundo a menos que ele seja registrado. Bohr não usou a consciência.. mas atualmente, vem crescendo o consenso, muito lentamente, de que a Física Quântica não está completa, a menos que concordemos que nenhum fenômeno é um fenômeno, a menos que seja registrado por um observador, na consciência de um observador. E isso se tornou a base da nova ciência. É a ciência que, aos poucos, mas com certeza, vem integrando os conceitos científicos e espirituais.

Cláudio Abramo: Em sua fala inicial, o senhor mencionou, deu como fato, que teria crescido a idéia de que haveria uma causalidade no sentido inverso àqueles do tradicional que se considera, e daí saltou para a afirmação de que isso abriria a porta para a entrada de Deus. A minha pergunta se divide em duas. Em primeiro lugar, essa idéia cresceu aonde? Quem, além do senhor, defende esse tipo de visão de mundo? E... dois, o porque Deus entrou aí nessa equação?

Amit Goswami: Na Física Quântica há um movimento contínuo. A Física Quântica prevê isso. Não há dúvida que a Matemática Quântica é muito capaz, muito competente, e ela prevê o desenvolvimento de ondas de possibilidades, a matéria é retratada como ondas de possibilidades. O modo como elas se espalham é totalmente previsto pela Física Quântica. Mas agora temos probabilidades de possibilidades. Nenhum evento real é previsto pela Física Quântica. Para conectar a Física Quântica a observações reais, embora não vejamos possibilidades e probabilidades, na verdade vemos realidades. Esse é o problema das medições quânticas. E luta-se com esse problema há décadas, como eu já disse, mas nenhuma solução materialista, uma solução mantida dentro da primazia da matéria foi bem sucedida. Por outro lado, se considerarmos que é a consciência que escolhe entre as possibilidades, teremos uma resposta, mas a resposta não é matemática. Teremos de sair da matemática. Não existe Matemática Quântica para este evento de mudança de possibilidades em eventos reais, que os físicos chamam de ‘colapso da onda de possibilidade em realidade’. É essa descontinuidade do colapso que nos obriga a buscar uma resposta fora da Física. O que é interessante é que se postularmos que a consciência, o observador, causa o colapso da onda de possibilidades, escolhendo a realidade que está ocorrendo, podemos fazer a pergunta: qual é a natureza da consciência? E encontraremos uma resposta surpreendente. Essa consciência que escolhe e causa o colapso da onda de possibilidades não é a consciência individual do observador. Em vez disso, é uma consciência cósmica. O observador não causa o colapso em um estado de consciência normal, mas em um estado de consciência anormal, no qual ele é parte da consciência cósmica. Isso é muito interessante. O que é a consciência cósmica diante do conceito de Deus, do qual os místicos e teólogos falam?

Mário Cortella: Uma questão para o doutor Amit que é a seguinte: o senhor é originado de uma cultura, que é a cultura da Índia, onde o hinduísmo, como religião, tem uma profusão de deuses ou de divindades, ou de deidades. Alguns chegam a falar em 300 milhões de deidades dentro da religião hindu. De outro lado, seu pai foi um guru brâmane, o senhor tem um irmão que é filósofo. Esta mescla de situações induziu no senhor uma compreensão em relação a um ponto de chegada, na religião, partindo da Física, ou o senhor já partiu da religião e, por isso, chegou até a Física e supõe que a Física Quântica é uma das formas de praticar teologia?

Amit Goswami: Obrigado pela pergunta, porque costumam me perguntar se minha formação como indiano hindu afeta o modo como pratico a Física. Na verdade, fui materialista por um bom tempo. Fui físico materialista dos 14 anos de idade até cerca de 45 anos. O materialismo foi importante para mim. Eu trabalhei com ele, filosofei nele, cresci nele. Eu obtive sucesso em Física dentro da Física materialista. Mas quando comecei a trabalhar no problema da medição quântica, eu realmente tentei resolvê-lo dentro do materialismo. Enquanto todos nós trabalhávamos, falei com muitos físicos que trabalhavam no problema (este é o problema mais estudado da Física, um dos mais estudados). E todos tentávamos resolver este paradoxo: se a consciência é um fenômeno cerebral, obedece à Física Quântica, como a observação consciente de um evento pode causar o colapso da onda de possibilidades levando ao evento real que estamos vendo? A consciência em si é uma possibilidade. Possibilidade não pode causar um colapso na possibilidade. Assim, eu tive de abandonar esse pensamento materialista. Embora fosse interessante, em minha vida pessoal eu sentia necessidade de mudar. Alguns consideraram uma transição de meia-idade, e os dois problemas, crescimento na vida pessoal e o problema da medição quântica, se confundiram, e eu comecei a ver a consciência não apenas como um problema físico, mas também como um problema pessoal. O que é que deixa alguém feliz? Qual é a natureza da consciência, da qual as pessoas falam quando se pensa além do materialismo? Então, comecei a meditar e a me aproximar de alguns místicos, e isso ajudou. E um dia, quando falava com um místico, e ele me dava a tradicional visão mística do mundo, que eu já ouvira muitas vezes antes, mas, de algum modo, essa conversa causou uma nova impressão em mim. Eu pude ver, eu realmente vi além do pensamento, tive a percepção de que a consciência é a base do ser, e essa percepção soluciona o problema da medição quântica. Não só isso: pode ser usada como base para a ciência. Normalmente, os cientistas presumem que a ciência deve ser objetiva, etc, mas eu vi, naquele momento, que a ciência deve ser objetiva até um certo ponto. Eu chamo de objetividade fraca, mas isso pode ser alcançado nessa nova Metafísica. Consciência é a base de todos os seres. Então, para mim, foi o contrário, eu fui da Física para a espiritualidade, sob o aspecto da Física. Porque minha formação espiritual, embora em retrospecto, eu possa dizer que foi saudável, deve ter sido, como Freud diria, no subconsciente. Mas conscientemente foi o oposto. Eu vim de uma questão muito inquietante, de como resolver um problema físico, um problema do mundo, pois esse é o problema mais importante do século XX. E a partir disso, esse salto conceitual, esse salto quântico perceptivo me fez reconhecer que o modo como espiritualistas vêem a consciência é o modo certo de ver a consciência. E esse modo de ver a consciência resolve o problema da medição quântica. Ele nos dá a base para uma nova ciência.

Carlos Ziller: Eu gostaria de fazer uma pergunta, dando um passo mais atrás no sentido da própria Física clássica. Porque nós sabemos, hoje em dia, que os fundadores da Física clássica, Newton, Déscartes e outros grandes cientistas do século XVII, para eles, para os projetos científicos que propunham, Deus era uma parte constitutiva inseparável do mundo que eles imaginavam, seja como sendo quem garantia a eficácia, eficiência, o funcionamento das leis do mundo, seja como alguém que operava os próprios fenômenos naturais. Bom, isso foi sendo afastado, expulso do mundo da ciência ao longo do século XVIII, século XIX, ou século XX, talvez, até os anos 50 tenha sido o ápice dessa questão, os cientistas, os físicos, sobretudo, não gostavam totalmente nada de falar sobre esse assunto. Deus era um problema. Talvez o seu estudo e a sua reflexão esteja tentando recolocar no seu próprio lugar, pelo menos foi assim que eu interpretei, algumas idéias do próprio século XVII, dos fundadores da ciência moderna. Eu gostaria de saber se essa aproximação do Deus do Newton, o que garantia que as leis naturais funcionavam, se esse Deus tem algum paralelo com a consciência, supra-consciência que o senhor propõe como sendo o princípio a partir do qual os fenômenos do mundo, a realidade estaria constituída?

Amit Goswami: É uma pergunta muito boa. Os conceitos da Física clássica, no início, não separavam Deus, como disse, mas então, aos poucos, descobriu-se que Deus não era necessário. Depois que Deus estabeleceu o movimento do mundo, ele passou a ser guardião de seu jardim, e isso é o que a maioria dos físicos clássicos pode fazer. Mas na Física Quântica, há o problema da medição. Como as possibilidades tornam-se eventos reais, temos espaço para uma consciência, e ela deve ser uma consciência cósmica. Há uma semelhança com o modo como Deus é retratado, pelo menos na subespiritualidade tradicional, não na mente popular. A mente popular considera Deus um imperador, um super-humano sentado no céu. Essa imagem de Deus não é científica, e espero que esteja claro que não estamos falando em Deus dessa forma, mas Deus nessa consciência mais cósmica, nessa forma mais estrutural. Esse tipo de Deus está retornando porque, se voce se recorda, o debate entre teólogos e cientistas sempre foi: Deus é o guardião ou Deus intervém? Teólogos afirmam que Deus intervém nos seres biológicos. E então surgiu Darwin. Foi um grande golpe nos teólogos, porque antes, apesar de Newton, os teólogos podiam citar o exemplo da Biologia, cujo propósito é muito óbvio, pelo menos, óbvio para a maioria. Mas a teoria de Darwin foi um golpe porque se dizia que a evolução ocorria... mas ela era natural? Darwin disse que ela era natural. Oportunidade e necessidade. Não há necessidade de Deus na evolução e não há necessidade de Deus na biologia. Então, no século XX, surgiu o behaviorismo e a idéia de que temos livre-arbítrio subjetivo. Essa idéia também foi superada, porque experimentos mostraram que somos muito condicionados, não há livre-arbítrio. Contra tudo isso, vejam só, a Física Quântica também cresceu ao mesmo tempo que o behaviorismo, e a Física Quântica tem uma coisa peculiar: o princípio da incerteza. O mundo não está determinado como imaginamos. Deus não é o guardião. O princípio da incerteza levou à onda de possibilidades, depois o colapso da onda de possibilidades para a introdução da idéia do colapso da consciência. Paradoxalmente, fomos criados contra essa idéia, mas nos anos 90, eu, Henry Stab, Fred Allan Wolf, Nick Herbert, todos mostramos que esse paradoxo pode ser resolvido. Não há paradoxo se presumirmos que a consciência que causa o colapso da onda de possibilidades em eventos reais é uma consciência cósmica. E o evento do colapso em si nos dá a separação matéria-objeto do mundo. Assim, não só resolvemos o problema da medição quântica como também demos uma nova resposta de como a consciência de um torna-se várias. Como ela se divide em matérias e objetos, para poder ver a si mesma. E essa idéia de que o mundo é um jogo da consciência, um jogo de Deus, que é uma idéia muito mística, voltou à tona. Então, podemos voltar à biologia. Deus intervém na biologia? Deus intervém na vida das pessoas? Essas perguntas continuam tendo respostas muito positivas. Vi, em um jornal sobre Biologia evolucionista, que há muitos furos conhecidos na teoria darwiniana. Esses furos são chamados sinais de pontuação. A teoria da evolução de Darwin explica alguns estágios homeostáticos da evolução, ou seja, como as espécies adaptam-se a mudanças ambientais. Mas não explica como uma espécie torna-se outra. Essa especiação, mudança de uma espécie em outra, é uma nova mudança na evolução, não está na teoria de Darwin. Experimentalmente, isso é demonstrado em lacunas de fósseis. Não temos uma continuidade de fósseis mostrando como um réptil tornou-se um pássaro. A idéia é que sejam sinais de pontuação, estágios muito rápidos de evolução. Eu sugiro que isto seja um salto quântico, um salto quântico na evolução. Nesse salto quântico, a consciência interveio, não de um modo subjetivo, de um modo caprichoso, mas de um modo muito objetivo.. muito objetivo, e essas idéias objetivas ficam claras com o trabalho de Rupert Sheldrake e outros, o modo como isso pode ser objetivo. Mas, sem dúvida alguma, há uma intervenção da causalidade descendente. Não se pode explicar a Biologia evolucionista só com a causalidade ascendente. Essa é a coisa mais interessante, a partir do pensamento original dos físicos de que Deus deve ser o guardião, pois tudo pode ser explicado e tudo é determinado, que não precisamos de Deus. Agora, estamos fechando o círculo, e vemos que não só precisamos de Deus: há movimentos descontínuos no mundo para os quais não existe explicação matemática ou lógica. Ainda assim, é totalmente objetivo, não é arbitrário. Deus age de forma objetiva, bem definida. A consciência cósmica não é subjetiva, não é a consciência individual que afeta o mundo. Isso ocorre de forma cósmica, podemos discutir objetivamente. A ciência detém seu poder, sua objetividade e, ainda assim, temos agora a descontinuidade, temos a interconectividade e podemos falar sobre vários assuntos dos quais os místicos tradicionalmente falam.

Pierre Weil: Durante essa discussão eu me coloquei como educador do ponto de vista do telespectador, e estou um pouco com medo de que alguns já desligaram o aparelho diante do alto nível científico do debate, que é necessário e indispensável. Eu queria ressaltar a importância da sua presença aqui em termos mais simples. Para o telespectador... tem telespectadores que acreditam em Deus, acreditam em espiritualidade e tem outros que não acreditam em Deus, não acreditam... são os materialistas versus os espiritualistas. Entre os dois têm os que não sabem ou os que nem se interessem para isto. Nestas três categorias, a sua presença aqui tem uma importância muito grande. Ela tem uma importância porque nesse século que passou, nós estivemos assistindo a três grandes movimentos: o primeiro movimento, em que muitos espiritualistas, muitas pessoas que acreditavam em Deus, abalados pelas “provas”, pelas evidências da ciência, largaram a religião e só acreditaram na matéria. E nisso foram até muitos sacerdotes de várias religiões. Largaram a batina, largaram a sua fé e se transformaram em protagonistas do materialismo. Estamos assistindo, atualmente, a um movimento contrário. Eu tenho, por exemplo, dois amigos meus. Um, Matew, grande biólogo francês, largou a biologia e hoje ele é monge budista tibetano. O outro era astrofísico, colega seu, largou a astrofísica e hoje ele é rabino. Então estamos assistindo a um movimento contrário. A sua presença aqui apresenta uma terceira saída, e que me parece a mais conveniente e a mais razoável, a mais holística, que é a minha também. A sua, como Física Quântica, fez com que, vindo do materialismo, não caísse no extremo do espiritualismo, mas integrou os dois. Eu fiz isso também como psicólogo, através da psicologia transpessoal... o senhor através da Física Quântica, eu, através da Psicologia Transpessoal... e nos encontramos muito bem e nos abraçamos o tempo todo. A minha pergunta é uma pergunta pessoal: poderia contar para os telespectadores, em termos mais simples, o que fez com que Amit Goswami ficasse no meio do caminho e fizesse um encontro dentro dele, da razão da Física, da razão materialista, e do outro lado, da Intuição? Falou nos seus amigos místicos, mas pela minha experiência eu sei que a segurança pela qual eu falo, não é apenas racional, ela é baseada numa experiência chamada interior, chamada subjetiva, chame como quiser, de luz, e de saber mais ou menos como que é esse mundo espiritual. Qual é a sua experiência que fez com que unisse, na sua pessoa, o lado masculino, racional, e o lado feminino, intuitivo, sentimental? O que aconteceu com a sua pessoa? Eu acho que isso nos vai reconciliar com os telespectadores.

Amit Goswami: Sim, obrigado. Esta é a questão fundamental. Às vezes, eu digo que todos nós, todas as pessoas, espectadores, cientistas, o orador, todos aqui, todos nós temos dois lados. Um é semelhante a Newton, que quer entender tudo em termos de objetividades, ciências e matemática, e o outro é William Blake, que é místico e ouve diretamente, intuitivamente, e desenvolve seu retrato do mundo baseado nessa percepção intuitiva. O que ocorre nessa integração, o que ocorreu por um tempo, mesmo antes de essa integração começar, é que começamos a entender a natureza da criatividade. E a falsa idéia de que cientistas só trabalham com idéias racionais e matemáticas, está, aos poucos, caindo. Einstein disse isso muito claramente: “Não descobri a Teoria da Relatividade apenas com o pensamento racional”. As pessoas não levam a sério tais declarações. Mas Einstein falou sério. Ele sabia que a criatividade era importante. Agora, quase cem anos de pesquisas sobre criatividade estão mostrando que os cientistas também dependem da intuição. Eles também dependem de visões criativas para desenvolver sua ciência. Nem tudo é racional, matemático; nem tudo é pensamento racional. Voce perguntou sobre minha experiência pessoal. Eu já compartilhei a experiência fundamental pessoal que tive quando troquei... nem devo dizer que troquei, eu tive uma percepção. Não posso descrevê-la em termos de espaço-tempo. Eu estava fora do espaço-tempo, experimentando diretamente a consciência como a base do ser. É esse tipo de experiência que dá a base para ficarmos convencidos, para termos certeza de que a realidade é algo mais do que o espaço-tempo no mundo em movimento faz parecer. Este é o escopo fundamental para o ponto de encontro dos cientistas e espiritualistas. Porque os espiritualistas ouviram esse chamado, essa intuição, muito antes. Os cientistas também a ouviram. Mas por eles sempre expressarem suas percepções em termos de lógica, em termos de razão, isso ocorre mais tarde. Eles esquecem a origem de seu trabalho, a origem de sua percepção. Já para os espiritualistas, a percepção leva à transformação do modo de vida. Assim, eles nunca esquecem que foi a intuição que trouxe a felicidade, foi ela que os fez quem são. Essa é a diferença. Cientistas usam a intuição para desenvolver sistemas que estão fora deles, o que chamo de criatividade externa. E isso torna-se uma camuflagem dos verdadeiros mecanismos do mundo para eles. Enquanto espiritualistas mantêm-se com a percepção, mudam suas vidas, e incidentalmente, mudam o mundo externo. Mas eles sabem que aquela percepção que tiveram é a coisa fundamental que gere o mundo. Para eles, a consciência é cósmica, isto é algo determinado. Para os cientistas, a mesma descoberta é possível, mas eles ignoram o chamado e prestam mais atenção ao que ocorre no cenário externo. Acho que, se todos nós compartilharmos isso, o mundo poderá mudar. Agradeço pela pergunta. Estou disposto a compartilhar: escrevi um livro sobre criatividade, no qual conto minhas histórias pessoais. Em todos os meus livros conto minhas histórias pessoais. É importante compartilharmos nossas histórias pessoais, e acabar com o mito de que os cientistas são apenas pensadores racionais. Eles também têm percepções que vão muito além do pensamento racional.

Heródoto Barbeiro: Doutor Goswami, o senhor falou muito em Deus durante a primeira parte deste programa, e aqui no ocidente, quando se fala em Deus, se imagina que exista o seu contraponto. E aqui no ocidente se dá uma série de nomes a ele. Eu gostaria de saber como é que o senhor explica essa... se o senhor concebe a existência desse contraponto, dessas outras forças que não são necessariamente Deus.

Amit Goswami: Essa questão de Deus contra o Mal é interessante. Segundo a visão da Física Quântica, existem as forças da criatividade e as forças do condicionamento. Não falamos muito sobre isso, mas eu defendo a idéia que a Física Quântica nos dá, de que é a consciência cósmica que escolhe entre as possibilidades para trazer à realidade o evento real que ocorre. A questão é: então temos de entrar nesse estado incomum de consciência, no qual somos cósmicos, no qual escolhemos e, então... como entrar nessa consciência individual na qual somos uma pessoa? Na qual temos personalidade e caráter? Ao trabalharmos com a matemática disso, descobrimos que essa condição ocorre porque todas as nossas experiências aparecem após serem refletidas no espelho da nossa memória, muitas vezes. É essa memória que causa o condicionamento. Uma propensão a agir do modo como já agi antes. Uma propensão para responder a estímulos do modo como já respondi antes. Todas as pessoas sabem disso. Elas passam a manhã no cabeleireiro e o marido volta para casa e diz: “O que há para o almoço?”, sem notar o novo penteado da esposa, o que é muito irritante, tenho certeza. Mas esse condicionamento é o que nos torna indivíduos. Então, a questão é que, na Física Quântica, vemos claramente o papel da consciência cósmica, que eu chamo de “ser quântico”, no qual há criatividade, há forças criativas. E então perdemos essa criatividade, ficamos condicionados. E o condicionamento nos faz parecidos com máquinas. Assim, o mal maior que a nova ciência nos traz é o condicionamento. Pois é ele que nos faz esquecer a divindade que temos, o poder criativo que temos, a força criativa que realmente representa o que buscamos quando invocamos Deus. Mas isso também está incompleto. Essa questão pode ser estudada mais a fundo e há um escopo maior, trazendo idéias como emoções negativas e positivas. Assim, teremos uma exposição maior do Bem contra o Mal. Mas, de fato, a consciência cósmica inclui tudo. Esse é o conceito esotérico, não tanto exotérico, mas esotérico, por trás de todas as religiões, de que há apenas Deus, e que o Bem e o Mal são uma divisão, uma necessidade da criação, mas não é fundamental, ou seja, o diabo não é igual a Deus; o diabo é uma criação subsequente. É útil pensarmos em termos de Bem e Mal mas, às vezes, é preciso transcender isso, é preciso perceber que Deus é tudo. Esse é o cenário que a Física Quântica defende.

Joel Giglio: Doutro Amit, eu sou psiquiatra, analista Junguiano, formado pela Associação Junguiana do Brasil, e tenho muitas perguntas a fazer ao senhor. Mas em vista do tempo e dos objetivos desse programa, vou me centrar numa delas. Eu pensei muito, quando li seu livro, em questões que ainda são incógnitas à nossa prática psicoterápica. A questão do ‘insight’... O ‘insight’ nós não sabemos, em psicoterapia, quando ele vai acontecer, como vai acontecer. Ele simplesmente aparece e quase que do nada, embora a gente intua que o ‘insight’ vá aparecer. A questão da criatividade... a questão da sincronicidade... mas eu gostaria de fazer uma questão sobre os arquétipos. O senhor menciona no seu livro, idéias de arquétipos de objetos mentais. Cita Platão e cita Jung, que é o criador da psicologia analítica, setor da psicologia onde eu me situo. A questão que tem me perturbado muito é: os arquétipos evoluem, embora eles estejam fora do eixo espaço-tempo? Alguns autores dizem que está havendo uma evolução dos arquétipos. Quem fala isso, por exemplo, é Sheldrake, que o senhor mencionou há pouco e que não é psicólogo, é biólogo, mas que tem uma visão diferente dentro do campo da biologia. Como é que a teoria da Física Quântica explicaria, supondo que os arquétipos evoluem, a evolução dos próprios pensamentos arquetípicos, por exemplo, a evolução do arquétipo de Deus, se é que ele está evoluindo ou não. Essa questão... e muitos outros arquétipos, nós supomos que estejam evoluindo sem anularem os arquétipos anteriores.

Amit Goswami: Obrigado pela pergunta. Sou um grande seguidor de Jung. Acho que Jung foi dos precursores da integração que está ocorrendo agora. Nos meus primeiros textos, eu citava muito a afirmação de Jung de que, um dia, a Física Nuclear e a Psicologia se unirão. E acho que Jung ficaria satisfeito com esta conversa e, em geral, com a integração da Física e da Psicologia transpessoal que vemos hoje. Isto posto, acredito no conceito de arquétipo de Jung, e acho que o modo como Jung o apresentou, e Platão o apresentou, de que são aspectos eternos da consciência, contextos eternos da consciência... a consciência tem um corpo contextual no qual os arquétipos são definidos e, então, eles governam o movimento do nosso pensamento. Acho que é um conceito muito poderoso. Mas, ao mesmo tempo, na Física Quântica, existe a idéia de que todos os corpos de consciência, tudo o que pertence à consciência, inconsciência, são possibilidades. E por causa disso, por tudo ser possibilidade, surge a questão: alguém pode ir além de arquétipos fixos e considerar arquétipos evolucionistas? Não se pode descartar o que Rupert tenta dizer. Houve uma idéia semelhante, de Brian Josephson, um físico que publicou um trabalho na Physical Review Letters, revista de grande prestígio, dizendo que as leis da Física podem estar evoluindo. Da mesma forma, outras pessoas, cientistas muito sérios, sugeriram que, talvez, forças gravitacionais mudem com o tempo. Essa idéia de arquétipos fixos é uma idéia muito importante. Eu a apóio totalmente. Mas também vejo que na Física Quântica há espaço para a evolução dos arquétipos. Não devemos descartar totalmente idéias que dizem que arquétipos evoluíram. Ainda seremos capazes de determinar isso experimentalmente. Obrigado pela pergunta.

Lia Diskin: O senhor manifesta certo interesse pelas questões éticas, grande parte do final de sua obra se dedica a essa questão. O senhor nos disse que há necessidade da participação da ambiguidade para dar garantias de criatividade no campo ético. Entretanto, no mesmo contexto, nos fala imediatamente das linhas e instruções éticas numa obra monumental da tradição indiana que se chama “Bhagavad Gitâ”. E a “Bhagavad Gitâ” se inicia pelo pressuposto da instrução do mestre para um discípulo, de que ele deve agir, de que ele deve entrar no combate, que ele deve assumir sua parte de ação, porque pertence a uma casta, a uma tradição de guerreiros, em que há ação da própria. Como fica o livre-arbítrio, como fica a ambiguidade como necessidade da criatividade dentro de um contexto de que existe um pressuposto, obviamente não-ambíguo e não-escolhível, que não pôde escolher? O que fazer... mas se está cominado a fazer, está cominado a agir? Como será isso, Professor?

Amit Goswami: Acho que essa também é uma pergunta muito difícil, muito sutil. Realmente, se considerarmos a ética compulsória, não parece haver escolha. Mas a ética não é tão definida: é muito ambígua. Lembro de uma história que o grande filósofo Jean-Paul Sartre contava. Suponha que voce vá em uma expedição de natação, ou melhor, de barco, e o barco afunde. Voce está com um amigo, voce sabe nadar, mas ele não. Mas voce não é muito forte. Se tentar salvá-lo, os dois podem morrer. Voce tem uma boa chance de se salvar, mas ama seu amigo e seu dever ético com ele está muito claro. O que fazer? Casos assim mostram claramente que há ambiguidade mesmo em decisões éticas, em decisões morais. Na Física Quântica, é muito claro que devemos esperar, e esperar pela intuição, ver se há um salto quântico, uma resposta criativa como voce a chama, se uma resposta criativa irá surgir. E é essa resposta criativa que é a resposta correta para solucionar essa ambigüidade em questões éticas. Quando a moralidade ou a ética são apresentadas como um conjunto de regras, e as pessoas seguem essas regras, elas perdem essa parte ambígua e, por causa disso, as regras perdem o sentido. Passa a ser um conjunto de regras inútil, sem vida. Mas, se considerarmos a ética com vida, e reconhecermos que temos um papel a desempenhar em todas as situações éticas, temos um papel a desempenhar em termos de irmos para dentro de nós, como as pessoas criativas fazem, combatendo isso, combatendo a ambiguidade. Então, o salto quântico da percepção virá e vai-nos permitir tomar a ação correta. É nisso que a Física Quântica está nos ajudando, é nessa conclusão que ela está nos ajudando. E acho que Sartre também buscava essa resposta porque a ética fixa é uma coisa impossível de se seguir.

Cláudio Abramo: Eu vou, infelizmente, ter que me estender ligeiramente na minha pergunta. Ela é precedida de uma declaração... Vou fazer uma interpretação do que foi declarado até agora, que eu acho que deve ser útil para os telespectadores. Não estou fazendo isso para me expor, mas para esclarecer o que me parece ser algumas questões importantes nesse debate para o telespectador. O entrevistado faz menção a fenômenos inexplicados, a fenômenos desviantes, entre diversas disciplinas. Começa com a Física, passa pela Biologia, faz referência a problemas seculares com respeito à consciência humana, ao livre-arbítrio, ao modo como raciocinamos, ao modo como chegamos a conclusões, menciona casos como, por exemplo, Einstein declarando, como tantos outros cientistas, que não sabe muito bem como chegou a uma conclusão. Poincaré, antes dele, havia escrito muito sobre isso... Poincaré era uma matemático, o último grande matemático universalista francês... ele morreu no começo desse século (XX). Bom, esse tipo de anedota é completamente comum na ciência. Não há nenhuma originalidade nisso. Esse gênero de anedota, repito, fenômenos inexplicados que são característicos da ciência... a ciência quanto mais sabe, menos sabe... quanto mais a ciência sabe, quanto mais fenômenos são explicados, mais avenidas de desconhecimento se abrem. Um cientista diz “não sei” o tempo todo. Um não-cientista explica tudo, porque sempre tem uma resposta do tipo “todo abrangente” como é esta resposta. O fato de se ter isso, para os telespectadores entenderem, o fato de se formular uma pseudo-explicação a respeito de como o universo funciona não dá a essa explicação, foros de verdade. Simplesmente declarar coisas não confere verdade ao que se declara. Agora, no que o senhor declara existe uma característica que eu acho bastante preocupante, ou pelo menos intrigante, vinda de alguém conhecido aqui como Físico, como o senhor declarou... o senhor foi.. o senhor foi Físico. O senhor diz, em primeiro lugar, que aquilo que seria essa intervenção de uma consciência cósmica, não é matematizável, quer dizer, isto não é introdutível dentro da teoria física na forma como a teoria física aceita as suas idéias. Não existe outra maneira de introduzir na Física idéias senão a matemática. Não existe.. não é possível, não é Física... se é não-matematizável, não é Física. Muito bem, então esta idéia de consciência cósmica não é Física, quer dizer, certamente nenhum Físico aceitará isso. Em segundo lugar, ela também, já que se está falando de alguma coisa que existe no mundo, que é uma consciência cósmica que se reflete na consciência das pessoas e faz as pessoas fazerem saltos quânticos... o senhor não vai usar esse termo, mas saltos quânticos em direção à solução de problemas... onde é que estão as evidências empíricas disso? Onde estão as experiências que levam a esse tipo de conclusão? Porque ou a gente pode ter conhecimento do mundo que seja muito estruturado, como no caso da Física, ou conhecimento do mundo pouco estruturado. Não existe uma teoria, não existe um conjunto de idéias muito organizado por trás, mas sabemos empiricamente que são verdadeiras, ou parecem verdadeiras. Onde é que estão as evidências empíricas e onde está o raciocínio, eu diria, desculpe a palavra, científico, que o leva a declarar que existiria uma consciência cósmica que estaria governando tudo e resolvendo todos os problemas aqui, da Biologia, da Psicologia?... O senhor afirma que estas suas idéias explicariam o problema da biologia evolucionista dos ‘gaps’ na criação de espécies, por exemplo. O senhor não acha ambicioso demais e, repito, onde é que estão as evidências empíricas disso?

Amit Goswami: Boa pergunta. Pergunta muito boa. Precisamos sempre fazer esta pergunta: onde está a evidência? Falarei da evidência mais tarde. Antes, responderei à pergunta: a Física é matemática? Ela deve ser totalmente matemática? Essa é uma crença que cresceu gradualmente na Física, por causa do sucesso da matemática para expressar a Física. Há duas coisas que devemos lembrar. Primeiro: não há motivo para a Física ser matemática. Às vezes os filósofos levantam essa questão. Nancy Cartwright escreveu um livro: Why do laws of Physics lie. Ela estava argumentando que não há provas dentro da filosofia materialista de que a Matemática deve governar as leis da Física. De onde vem a Matemática? Pessoas como Richard Feynman, grande físico, Eugene Bigner, todos estudaram a questão. E não há resposta dentro da filosofia materialista. Platão tem uma resposta: a matemática molda a Física porque surgiu antes da Física, faz parte do mundo arquetípico que discutimos. Assim, o idealismo de Platão é fundamental para entender o papel da Matemática na Física, em primeiro lugar. A Física em si precisa de algo além da matéria, ou seja, da matemática e de arquétipos para ser uma ciência consistente. É preciso se lembrar disso. O segundo aspecto da questão é o mais importante. Na Física Quântica, procuramos insistentemente uma forma matemática de encerrar a Mecânica Quântica. Uma forma matemática para entender a medição quântica. Não fomos capazes. Niels Bohr demonstrou para Erwin Schrödinger, há muito tempo, quando a Mecânica Quântica estava sendo desenvolvida. Schrödinger achou que tinha obtido a continuidade e Bohr provou o contrário e o convenceu disso. E Schrödinger disse: “Se eu soubesse que essa descontinuidade, saltos quânticos, iriam permanecer, eu nunca teria descoberto a Mecânica Quântica”. Bohr disse: “Estamos felizes que tenha descoberto”. Essas descontinuidades vão continuar existindo, não há explicação matemática, e por não haver explicação matemática, portanto, há espaço para o livre-arbítrio. O livre-arbítrio, Deus, consciência, colapso, tudo isso entrou para a Física porque atingimos o conhecimento, a sabedoria, de que existe o princípio da incerteza, existem a probabilidade e possibilidades. E por existirem probabilidade e possibilidades, deve haver um agente que causa o colapso das possibilidades em eventos reais. E esse agente não pode ser matemático porque, se for, não poderá haver livre-arbítrio: seria determinista. Mas não é determinista. O princípio da incerteza é fundamental. Assim, nós chegamos à conclusão, após décadas de lutas nós conseguimos...

Cláudio Abramo: Quem é “nós”?

Amit Goswami: “Nós” quer dizer que há um consenso entre cientistas...

Cláudio Abramo: Há um consenso a respeito de suas idéias?

Amit Goswami: Não a respeito de minhas idéias. Esqueça as minhas idéias. Mas há um consenso de que não há solução matemática para o problema da medição quântica. Nisso, chegamos a um consenso. E por não haver uma solução matemática para isso, e por haver uma solução consistente em termos de consciência causando colapso de possibilidades quânticas em realidade, podemos falar sobre essas idéias publicamente. Quanto à segunda pergunta: Há evidência empírica? Acontece que os dois aspectos fundamentais da nova física, a consciência causa o colapso da possibilidade em realidade, e o segundo, que essa consciência é uma consciência cósmica, os dois aspectos foram confirmados por dados empíricos. Antes, darei os dados para o segundo, porque é o mais simples para o espectador. O primeiro é um pouco difícil. Talvez possamos incluir os dois. O primeiro experimento é muito importante porque já foi aplicado. Em 1993 e 1994, o neurofisiologista mexicano Jacobo Greenberg Silberman, ele e seus colaboradores fizeram um experimento, no qual havia dois observadores meditando por 20 minutos, com o propósito de terem comunicação direta. Comunicação direta no estilo de não-localidade. Sinais não-locais ocorrendo entre eles, e ainda assim eles teriam comunicação. Certo, eles meditaram juntos. Pediu-se que mantivessem o estado meditativo durante o resto do experimento. Mas então, um deles é levado para outro recinto. Eles ficam em câmaras de Faraday, onde não é possível a comunicação eletromagnética. Os cérebros deles são monitorados. Uma das pessoas vê uma série de ‘flashes’ brilhantes, o cérebro dele responde com atividade elétrica, obtém-se o potencial de resposta muito claro, picos muito claros, fases muito claras. O cérebro da outra pessoa mostra atividade, a partir da qual obtém-se um potencial de transferência que é muito semelhante em força e 70% idêntico em fases ao potencial de resposta da primeira pessoa. O mais interessante é que, se voce pegar duas outras pessoas, duas pessoas que não meditaram juntas, ou pessoas que não tinham a intenção de se comunicar, para elas, não há potencial de transferência. Mas para pessoas que meditam juntas, invariavelmente, muitas vezes, um em cada quatro casos, obtemos o fenômeno de potencial de transferência. E Peter Fenwick, na Inglaterra, há dois anos, confirmou isso, repetindo o experimento. Assim, temos evidência empírica. Se tivéssemos tempo, e voce tivesse paciência, eu poderia lhe dar inúmeros dados. Outro dado que é muito interessante: considere o caso de geradores de números aleatórios. Eles são realmente aparelhos quânticos, pois eles pegam eventos radiativos, que são aleatórios, e os convertem em seqüências de números, seqüências de zeros e uns. Em uma longa cadeia, deve haver número igual de zeros e uns. É o que se espera da sequência aleatória. Helmut Schmidt, um físico que pesquisa parapsicologia, tenta há quase 20 anos, fazer com que médiuns influenciem os geradores de números aleatórios para gerarem sequências não-aleatórias, mais zeros que uns. E ao longo dos anos ele conseguiu boas evidências de que, até certo ponto, os médiuns conseguem fazer isso. Um resultado com um grande desvio. Isso ainda não tem nada a ver com Física Quântica, mas recentemente, em um trabalho publicado em 1993, Schmidt retratou uma modificação revolucionária desses dados. O que ele fez, recentemente, é que o gerador de números aleatórios, os dados do gerador de números, a sequência, é armazenada num computador, ela é impressa, mas ninguém olha. Os dados impressos são fechados num envelope e enviados para um observador independente. Três meses depois, o observador, sem abrir o envelope, escolhe o que quer ver, mais zeros ou mais uns. Tudo segue um critério. Então ele liga para o pesquisador, o pesquisador diz ao médium para olhar os dados, e pede a ele para mudar os resultados, influenciá-los, se puder. E o médium tenta produzir mais zeros, se esse for o desejo do observador. E então, o observador abre o envelope e verifica se o médium conseguiu. E a incrível conclusão é (é um resultado sério, não é fácil contestá-lo) que o médium, em 4 de cada 5 tentativas, consegue mudar os números aleatórios gerados pelo aparelho, mesmo após três meses. Este mito de que o pensamento causa o colapso de si mesmo, que o colapso é objetivo, sem que o observador consciente as veja, é apenas um mito. Nada acontece, tudo é uma possibilidade até que o observador consciente veja. Numa experiência controlada, as pessoas intervieram. As pessoas viram, sem contar a ninguém, viram os dados, a impressão. Nesses casos, o médium não influenciou os dados. Está claro que a consciência exerce um efeito, exatamente como Bohr suspeitava, como Newman suspeitava. Agora estamos fazendo teorias mais completas e experimentos mais completos baseados nessas teorias. Henry Stab colaborou com todas essas idéias que apresentei, consciência causando o colapso de funções quânticas em eventos reais. Ele participou do experimento com Schmidt. Então, estamos vendo uma mudança revolucionária na Física, não menos revolucionária do que a acontecida com Copérnico. Claro que haverá reações, como a que apresentou, e temos de ser muito pacientes, calmos, e trabalharmos juntos para superar essas tendências contrárias. Mas temos a certeza de que existe algo que todos devemos olhar. Isso é revolucionário, é novo e pode mudar, como já discutimos, as dificuldades com valores que a sociedade vem enfrentando. Não vamos nos preocupar em como pode ser, mas vamos olhar os dados, olhar a teoria e perguntar: pode ser? Se pode, que oportunidade fantástica temos para integrar todos esses movimentos díspares de consciência que nos separaram por tanto tempo.

Heródoto Barbeiro: Ele é autor também do livro “O universo autoconsciente -Como a consciência cria o mundo material”. Dr. Goswami, dentro dessas explicações que o senhor nos deu até agora, como fica a questão da reencarnação e da preservação dessa consciência dos seres humanos?

Amit Goswami: A questão da reencarnação, provavelmente, é a pergunta mais radical que pode ser feita. E é impressionante que a Física Quântica nos permita dar uma resposta afirmativa. Eu mesmo fiquei tão surpreso quanto qualquer um, com isto.. No início, quando me perguntavam isso, eu me recusava a discutir. Mas então, eu acordei de um sonho, e, basicamente, o sonho me dizia... eu ouvi isso no sonho: “O Livro Tibetano dos Mortos está certo e seu trabalho é provar”. Após acordar desse sonho, eu passei a encarar reencarnação com seriedade. Basicamente, o problema com a reencarnação é este: o corpo físico morre, e o que resta? Se a consciência é a base do ser, vem a idéia de que o que resta é a consciência. É a primeira pista. A segunda pista é que tudo é possibilidade, no modo quântico de ver as coisas. Então, não é irrelevante dizer que as possibilidades podem viver. Algumas possibilidades morrem com o corpo material e o cérebro, mas pode haver outras possibilidades, outras possibilidades que se modificam ao longo da nossa vida, e essas modificações das probabilidades das possibilidades podem formar uma confluência que possa viver mais tarde na vida de outra pessoa. É essa idéia que pude desenvolver de forma mais completa, num livro que será lançado no ano que vem, e fico feliz em dizer que podemos lidar com essa questão. A vantagem de se fazerem essas perguntas é que podemos ver imediatamente a utilidade das novas ciências que virão. Porque são essas coisas que preocupam as pessoas. As pessoas são fundamentalmente incomodadas por perguntas como “o que acontecerá quando eu morrer?”. E se a nova Física puder responder essas perguntas, a despeito da importância da Psicologia transpessoal, e da Psicologia junguiana, em que a nova ciência ajuda, e também da medicina alternativa, que nem discutimos ainda, acho que tocaremos o coração das pessoas quando pudermos dizer: “Finalmente, a Ciência pode ajudar a entender essa pergunta”. Até agora, apenas o padre, o teólogo pode dar qualquer resposta para a pessoa. E se pudermos dizer a ela: “Faz sentido fazer essa pergunta, e voce pode fazer algo para ajudar voce com o que acontecerá após a morte”. Não seria um progresso maravilhoso na ciência?

Joel Giglio: Professor Amit, eu vou fazer uma pergunta baseado no trabalho de um ex-orientando de tese de doutoramento que eu orientei na Universidade de Campinas, e que fez a primeira tese, pelo menos na Unicamp, e talvez em qualquer universidade estadual ou federal do Brasil, sobre parapsicologia. Ele fez uma tese sobre clarividência e eu não vou, naturalmente, falar da metodologia do trabalho que seria bastante extensa, mas resumir pelo menos os resultados principais. Várias pessoas, vários sujeitos tentavam adivinhar as cartas de um baralho de símbolos geométricos, baralho de Zener muito usado em pesquisa e parapsicologia, e tentava adivinhar as cartas de um baralho Tarô, que é baseado em imagens arquetípicas, o Rei, a Rainha, etc. Nos resultados que foram feitos seguindo uma metodologia tradicional, estatística, as pessoas acertaram, no baralho de Zener, um pouquinho acima do que era esperado ao acaso e 10% acima no baralho de Tarô, comparando com o de Zener. A explicação dada pelo meu orientando foi dentro da teoria da Psicologia Analítica, em relação aos arquétipos emergentes que, de uma certa forma, estariam mobilizados mais no baralho de Tarô do que simplesmente no baralho de símbolos geométricos. Mas essa explicação, embora nos satisfaça um pouco, ainda deixa muito a desejar. Eu perguntaria se o senhor teria alguma explicação a mais baseada na Teoria Quântica sobre essa maior adivinhação das cartas do baralho do Tarô, que são símbolos arquetípicos em relação ao baralho comum de Zener , que são cinco símbolos geométricos, quadrado, cículo, etc.?

Amit Goswami: Sim. Obrigado pela pergunta. Na verdade, somente no Brasil alguém pensaria em fazer um experimento tão brilhante. Tenho visitado o Brasil nos últimos 5 anos e o futuro parece promissor. Eu fico entusiasmado com a mente do brasileiro. Qual é a diferença entre o experimento original de adivinhação de cartas e as cartas de Tarô? A idéia que proponho, acho que voce pensa da mesma forma, é que quando o objeto que usamos na telepatia é significativo, ele é um objeto melhor. Os cientistas, os parapsicólogos anteriores preocupavam-se demais com a objetividade e ignoravam esse aspecto. Agora, nos novos experimentos parapsicológicos, espero usarmos cada vez mais objetos significativos na transferência telepática. E voce tem razão, a explicação completa tem de usar a palavra “telepatia”, tem de usar a transferência não-local de informações, neste caso, transferência não-local de informações significativas, arquetípicas. E esse é o motivo para os melhores resultados. Mas a não-localidade, a não-localidade quântica, tem de ser evocada para se ter uma explicação completa do que ocorreu. Obrigado.

Mario Cortella: Doutor Amit, eu juntei algumas questões nisso que eu não vou tratar delas como perguntas, porque eu acho que na sua obra, pelo menos no que eu pude ler, há um aprofundamento disso e uma leitura mais detalhada ofereceria mais questões. Por exemplo, no campo da psicanálise essa idéia de que o universo é quando é percebido e até interferido, será que não seria uma postura um pouco ego-narcísica da nossa parte, um pouco antropocêntrica em relação ao próprio universo que dificulta a idéia de um cosmo, invertendo Dostoievsky. Dostoievsky disse que se Deus não existe, tudo é permitido. Nessa compreensão, parece que se Deus existe, aí é que tudo é permitido, porque existe aí uma probabilidade que pode ser interferida. E uma outra questão, que eu acho que está na sua obra mas acho que vale aprofundamento, é o ateísmo metodológico, sendo que foi tão caro para a ciência para poder buscar explicações, mas ele não é mais necessário. Mais aí a questão de fundo: eu tenho lido, não sei se é verdade, que a Física Quântica mostra que hoje o tempo é uma ilusão. Alguns têm dito que não se fala mais em universo, mas em multiverso, porque haveria vários universos paralelos. Isso traria um problema: a possibilidade de viajar no tempo. A maior explicação que achei até hoje contra a viagem no tempo, foi do Físico inglês, Stephen Hawking, que usou um argumento lógico. Ele disse: “É impossível viajar no tempo porque se um dia for possível isso, os homens do futuro já teriam voltado”. Mas a Física Quântica ao falar em universos paralelos levanta a possibilidade de se ter o tempo como uma mera ilusão humana. Isso me coloca a seguinte pergunta aí para o senhor: será que nós chegaremos, com a Física Quântica, a voltar à origem do cosmos e, aí sim, encontrar o princípio explicativo?

Amit Goswami: Bem, suas duas colocações são muito boas, e a pergunta é extremamente fascinante. A primeira coisa que quero dizer é que ‘não dizemos que tudo é possível’ apenas por termos incluído aí a consciência em nossas teorias, porque ainda estamos concordando totalmente com a Física Quântica que a causalidade ascendente molda a forma das possibilidades, a partir da qual a consciência escolhe. Tanto a causalidade descendente, quanto a ascendente têm papel fundamental na nova Física, na nova Ciência. Essa é uma das virtudes que temos. A nova Ciência absorve a velha Ciência nos limites do princípio da correspondência, no limite de que poderíamos falar apenas em termos de probabilidades para um grande número de coisas e eventos. A velha Ciência não desaparece. Não poderia. É solidamente baseada em dados experimentais. A nova Ciência expande a velha Ciência em arenas com as quais a velha Ciência não pode lidar. Como eventos singulares de criação, criatividade. Esse é o primeiro ponto. Sobre voltar no tempo, há experimentos quânticos. O mais famoso é o experimento de Le Choice, mas é muito longo para explicar, e muito complicado para os espectadores realmente apreciarem. Embora, se alguém estiver interessado nele, há livros sobre ele. Leiam, por favor, é fascinante. Há algo acontecendo. Essa idéia de voltar no tempo é real na Física Quântica. Podemos ser afetados por coisas no futuro, assim como somos afetados por coisas no passado. Na Física Quântica, o tempo é não-linear. Isto posto, claro que experimentos recentes são tão impressionantes, tão surpreendentes, que muitos físicos convencionais, conservadores, procuram formas de viajar no tempo. Mas acho que o consenso é que a viagem no tempo envolve muito mais do que esta observação da Mecânica Quântica. Não podemos mais descartá-la, mas ela envolve muito mais pois ainda temos sérios problemas de como trazer os efeitos quânticos aos macrocorpos. Pois os efeitos quânticos são muito destacados apenas em objetos microscópicos, e não tão destacados em macro-objetos. A situação da medição é uma exceção. Mas normalmente descobrimos apenas raios ‘laser’, supercondutores, poucas coisas, poucos macro-objetos em que os efeitos quânticos persistem. Então temos de resolver esse problema de como macrocorpos podem ser transportados pelo tempo, e isso levará um tempo. Se a consciência voltar a essa equação, e ela precisa voltar, em algum ponto, então, outra dimensão de pensamento se abrirá e isso pode nos dar novas respostas, novas visões sobre isso. Mas é muito prematuro falar sobre isso, acho.

Rose Marie: Eu sou muito interessada em história da tecnologia, porque eu acho que através da tecnologia é que os sistemas econômicos se desenvolvem, que cresce uma dominação de potências hegemônicas. Isso vai muito na linha da pergunta do Cláudio Abramo. Eu sei que o senhor está trabalhando na construção do primeiro computador quântico. Eu quero perguntar uma coisa: o computador quântico dá saltos quânticos, ele cria? Qual a diferença dele do computador determinístico?

Amit Goswami: Essa é uma pergunta muito interessante. O que é um computador quântico? Um computador quântico em vez de usar um algoritmo específico, usa um algoritmo ambíguo. No computador quântico é usada a superposição de possibilidades e, dessa forma, espera-se que seja muito mais rápido que o computador convencional. Desde que o computador quântico opere apenas nesse nível, eu não espero que ele seja uma novidade tão grande, a não ser o fato de ele ser mais rápido. É isso que interessa aos cientistas da computação. Mas eu tenho um interesse diferente nesse computador. Se o computador for construído, por ter um processador quântico, por processar superpondo possibilidades...

Rose Marie: É tão realista.

Amit Goswami: Isso mesmo. Assim como o ser humano faz. O cérebro humano, de forma semelhante, processa de forma quântica as possibilidades, em vez de trabalhar diretamente, de maneira algoritmica, sem ambiguidade. Então, alguém pode fazer um computador que tenha todos os outros aspectos da medição quântica? A situação da medição quântica envolve um mecanismo que chamo de hierarquia embaraçada. É um pouco difícil de entender, mas um exemplo é a frase: “Eu sou mentiroso”. Se pensar nela, verá que a relação hierárquica entre sujeito e predicado é recíproca. “Eu” qualifica mentiroso, e vice-versa. Um qualifica o outro. É o que chamo de hierarquia embaraçada. A medição quântica no cérebro é assim. A questão intrigante para mim é que: suponha que no futuro encontremos um computador com hierarquia embaraçada. O interessante é que a hierarquia embaraçada dá margem à auto-referência. Então, este computador quântico terá auto-referência? A consciência cooperará na criação de um aparelho feito por humanos, que não seguiu uma evolução, mas desenvolvido pela inteligência humana? A consciência cooperará? A consciência cósmica cooperará e o tornará um ser consciente? Eu não sei a resposta. Mas esta será uma verificação fundamental, uma das mais fantásticas, das idéias que discutimos hoje. Acho que essa pesquisa deve ser encorajada. Obrigado pela pergunta.

Lia Diskin: Tentando fazer uma síntese dentro das idéias da biologia, dentro das idéias da psicologia e, logicamente, de toda a Física que o senhor coloca, o que hoje sabemos é que apenas 2% de nosso cérebro utiliza vias neuro-cerebrais para entrada e saída de informação. E é a partir disso, que nós construímos o que chamamos “os objetos ideais e universais” que constituem a ciência. 98% restante pertence a um universo interno, nebuloso, no qual existe a fantasia, a ilusão, logicamente a irracionalidade e também a probabilidade. Até que ponto podemos dizer que é possível um verdadeiro diálogo com essa disparidade de porcentagens? Até que ponto podemos dizer que é possível uma cientificação das idéias, de Deus, ou das idéias internas, humanas, divinizadas, como queira chamá-las?

Amit Goswami: Em outras palavras, deixe-me ver se entendi a pergunta, há muitas coisas que são fantasias e há muitas coisas que envolvem Deus. É possível transformar esses aspectos fantasiosos em científicos? É uma pergunta interessante. Claro, na criatividade, transformamos fantasias, transformamos algumas fantasias em algo científico. Porque algumas delas são fantasias criativas. Em outras palavras, a imaginação, a parte mental de nossas vidas, a parte interna de nossa vida, é fundamental no que fazemos no mundo externo. Na nova Ciência, por estarmos igualmente envolvidos com o mundo externo e o interno, pelo fato de a subjetividade ter voltado à ciência, estamos validando o conceito de que, talvez, devamos levar algumas de nossas fantasias a sério. Porque a idéia contrária também pode ser positiva, ou seja, de que tudo é uma fantasia. Fantasia da mente, fantasia da consciência. Porque a consciência é a base do ser, e o que pensávamos ser material e real, e o que pensávamos ser fantasia e irreal, esta distinção não é muito clara, agora. São todas possibilidades da consciência. Portanto, é a consciência que as valida, que escolhe entre elas, que lhes dá substancialidade. Então, qual delas será substancial depende totalmente da escolha, do contexto no qual a consciência as vê. Isso vai revolucionar a sociedade, como voce antecipou com sua pergunta. Em outras palavras, vamos levar nosso mundo interno muito mais a sério. Eu costumo dizer às pessoas que, se elas estudarem seus sonhos, o preconceito que costumamos ter é de que o sonho não é contínuo, portanto, de que adianta estudá-los? Há evidências de que os sonhos são contínuos, mas é preciso olhá-los sob o ponto de vista significativo. Alguns ficariam felizes com essa descoberta científica, de que os sonhos dão um relatório sobre a parte significativa das nossas vidas. Então, há outros aspectos da vida com os quais a ciência materialista não pode lidar e com os quais podemos lidar agora por colocar a consciência de volta, por exemplo, o pensamento. E, quando fazemos isso, nossa vida interna adquire uma enorme importância. Sim, a vida interna lida com o pensamento, a beleza, os arquétipos, de uma forma diferente que a vida externa, materialista, pode. E, focalizando na vida interna, não só podemos nos transformar, essa é a parte mística, mas também podemos ter enormes visões sobre o que criar, como criar, sobre nossas artes, sobre nossa música, até sobre a ciência.

Pierre Weil: Eu queria primeiro felicitar esse programa, Roda Viva, pelas iniciativas que está tomando. Eu quero dizer que é a primeira vez que eu vejo na televisão, problemas tratados no nível que merecem, na altitude que merecem, problemas como a parapsicologia, a psicologia transpessoal. Isso é feito graças a uma mudança de paradigma. E eu queria realçar de novo para o público telespectador que o que estamos tratando aqui tem uma influência muito grande sobre a destruição da vida no planeta e a grande crise de violência que está assolando atualmente o mundo, não é só o Brasil. Eu queria, já que estamos no fim do programa, deixar a oportunidade a Amit Goswami, que nós convidamos na nossa Universidade da Paz em Brasília, justamente porque ele representa um novo paradigma, como que o antigo paradigma é responsável pela violência atual do mundo, antiga visão que está responsável pela destruição da vida no planeta, e como o novo paradigma pode nos ajudar a nos tirar dessa crise, além de medidas policiais e de mudança de lei que são necessárias, mas são absolutamente insuficientes?

Amit Goswami: Obrigado. Acho muito importante dizer que, sem reconhecer a consciência e sem reconhecer o valor da nossa vida interna, sem reconhecer o valor da transformação, nunca mudaremos a violência na sociedade. Então, é muito importante ver que apenas pensando em não-violência, apenas falando dela, não deixaremos a violência. É preciso passar por todo o processo criativo. A nova Ciência, o novo paradigma, é extremamente importante porque sempre enfatiza a criatividade. Na velha Ciência, o determinismo e behaviorismo, essa idéia de que o condicionamento prevalece, nos cegou tanto quanto à transformação, nos cegou tanto que desistimos. Basicamente, os valores não eram necessários. Steve Weinberg disse que não há significado no universo, não há valores se o consenso é o julgamento dos cientistas materialistas, e isso ocorre dentro da sociedade, e o behaviorismo diz: “Não podemos fazer nada. Somos seres comportamentais, somos condicionados”. E a nova Ciência diz: “Não. Também há forças criativas dentro de nós. Basta aprender a agir a partir desse estado de consciência não-ordinário no qual voce tem escolhas”. E o meu novo lema, em vez do cartesiano “eu penso, logo existo”, e pensamento é uma condição behaviorista, meu novo lema é: “escolho, logo existo”. Se é “escolho, logo existo”, posso escolher a não-violência. Mas tenho de aprender como escolher, e isso exige criatividade. Essa é, realmente... a nova confiança do novo paradigma: em vez de escolher a metade condicionada do mundo, vamos dividir o mundo em condicionamento e criatividade. Forças do Bem e do Mal, das quais falamos antes. Podemos ser muito otimistas. Se essa mudança para o novo paradigma vier logo, talvez possamos realmente lidar com a violência de uma forma realmente prática, em vez de apenas verbalmente, como fazemos.

Carlos Ziller: Quando eu estava fazendo a minha leitura dos seus trabalhos, percebi um sentimento que eu compartilho, de um incômodo profundo com relação a algumas conclusões que emergem de determinados meios científicos. Vou dar só um exemplo, acho que o telespectador vai se lembrar, certamente. Há algum tempo atrás apareceu um resultado de um laboratório do EUA que falava da descoberta do gene da homossexualidade. Mais recentemente falou-se no gene da obesidade, e há toda uma série de conclusões desse tipo que não deixam de produzir, nos homens de bom senso, uma certa surpresa, e, contudo, mesmo em homens que são materialistas e bem convencidos, que não aceitam, rejeitam esse determinismo radical que emerge de alguns ambientes científicos, sobretudo norte-americanos. Há um materialismo que convive muito bem com o livre-arbítrio. Há um realismo filosófico que convive muito bem, sem muito inconveniente, com paradoxos, com contradições. Isso não é, digamos, o todo, do que se poderia chamar de “atividade científica”. Por fim, eu gostaria de fazer uma pergunta, e é a questão mais importante que eu teria a colocar, que emerge também de uma sensação que eu tive ao ler “O universo auto-consciente”. Eu tive a sensação de retornar ao passado, aí sim uma viagem ao passado. Eu vi ali, arrumados, organizados de uma forma muito particular por voce, idéias e proposições que eu já havia conhecido em leituras, por exemplo, da obra do cardeal Nicolau de Cusa , grande pensador do século XV, que propôs que o universo era resultado de uma contração de Deus, e essa contração, enfim, não é o caso aqui de eu explanar essa filosofia. Mas esse tipo de pensamento, produziu, interagiu com concepções científicas do século XVI, do século XVII, com concepções que propunham que a divindade organizasse, ou enfim, propunha uma visão bastante parecida com essa, um projeto científico bastante parecido com esse que voce está propondo nesse seu livro. A humanidade passou por um processo muito longo, muito duro, para conseguir, digamos, não eliminar Deus da Ciência, mas pelo menos reduzir um pouco seu papel, esse processo foi longo e lento. Para concluir, como o senhor acredita poder convencer os cientistas desse seu projeto, depois de tanto esforço para conseguir criar uma noção de objetividade, de realidade, de realismo, com todos os exageros em alguns momentos, mas convencer esses homens depois de tanto esforço? O senhor imagina conseguir isso usando que gênero de recursos?

Amit Goswami: Eu acredito que as idéias se verificarão por si mesmas, serão confirmadas nos laboratórios e serão úteis. A ciência tem dois critérios fundamentais. Por isso Galileu é chamado de pai da ciência moderna, pois ele enunciou claramente esses dois critérios. Um é que a ciência deve ser verificável. Ela deve ser verificada experimentalmente. E a segunda idéia é que a ciência deve ser útil. No aspecto da verificação, já apresentei alguns experimentos a voces, pois o tempo é curto, não entrarei em outros experimentos, mas digo que há um número enorme de experimentos sendo realizados, graças à Parapsicologia e interessados em Parapsicologia. Mas também em Biologia, e a Medicina é uma grande área de verificação experimental de algumas de nossas idéias. Mas a questão da utilidade é a mais importante. Deepak Chopra ficou famoso por um livro que escreveu, chamado Cura Quântica, lançado há 10 anos. Ele começou a revolucionar a Medicina, de certa forma, pois há um fenômeno chamado “efeito placebo” para o qual os cientistas não têm explicação. E esse trabalho, que é muito semelhante à minha forma de pensar, e eu tenho lido trabalhos citando a conexão entre as nossas idéias... Mas veja as implicações disso. Se, de fato, houver cura quântica, se houver Medicina mental, o efeito da mente sobre a cura, então as pessoas serão de fato ajudadas, não apenas no campo da Psicologia, mas no campo da verdadeira saúde física. A saúde física real, que importa para muito mais pessoas do que a saúde mental, ainda não estamos esclarecidos o bastante para levar a saúde mental tão a sério. Mas todos se preocupam com a saúde física, levam muito a sério. É a aplicação da nova Ciência a essas áreas, especialmente na área da saúde, que vai trazer a revolução de que Deus é importante, a consciência é importante, a criatividade é importante, observar o livre-arbítrio e responsabilidade é importante, que temos um paradigma científico que pode unir todas essas coisas, trazê-las para junto da velha ciência e ter formas objetivas de proceder e prever. Será uma ciência previsível, poderá ser verificada e também será útil. Isso é o que mudará a percepção do público. A percepção dos cientistas, também. Obrigado.

Heródoto Barbeiro: Doutor Goswami, muito obrigado por vir.

Amit Goswami: Muito obrigado. Foi um prazer estar aqui.

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Para saber sobre o entrevistado visite:

http://pt.wikipedia.org/wiki/Amit_Goswami

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domingo, 4 de abril de 2010

Dica de Filme

Ponto de Mutação

Fritjof Capra nos traz uma obra de sensibilidade e reflexão sobre as bases da existência e da integração do pensamento e das ações humanas no contexto do desenvolvimento, na busca da equação da vida e do progresso equilibrado e sustentado.

Partindo da paradisíaca ilha de Saint Mitchel, onde existe uma fortaleza medieval que com seu isolamento temporário, pelas marés, nos traz do subconsciente a imagem do isolamento do pensamento, com suas ruelas e salas, com seus cheiros e sabores, com suas masmorras e aposentos.

O político e o poeta se vem em um dilema, cada qual preso em seu mundo, procurando nele o sucesso sua direção, tal qual uma solitária ilha. O terceiro personagem busca o caminho, se transformar no isolamento, na fuga o perdão pelos resultados de suas ações e criações.

Ao se prenderem ao seu mundo próximo e com limites claros e estruturados, dentro das muralhas do conhecido, eles tendem a aplicar de certa maneira o cinismo que apregoam como básico: a convivência com pessoas menos inteligentes ou que podem ser conduzidas, seja na política, na ciência ou na vida, como turistas sem conhecimento ao encontrarem o novo.

Na discussão sobre o papel dos mecanismos que regem o mundo, abordam a evolução do pensamento humano, passando por Descartes e chegando aos nossos dias, onde vemos os líderes, as pessoas socialmente aceitas como condutores, pensando unicamente de forma mecanicista, aplicando a forma mais simples de conduzir: o modelo cartesiano, onde dividimos o todo em partes, para estudando e entendendo cada uma, procurar entender o todo. Este entender para os políticos seria controlar, induzir, prever.

Nesta ânsia, não poupam o custo do sacrifício da vida, da existência, aplicada a uma parcela da humanidade presa pelas quatro paredes dos modelos econômicos mecanicistas, que independente do custo social, só pensam na validação econômica de suas teorias e negociações. Os sistemas existentes não encorajam a prevenção, só a intervenção, que não consideram que só se constrói um modelo de sucesso no presente, se estimularmos o futuro. Chega-se a dedução de que precisamos adotar o modelo de intervenção colocado como feminino, nutriente, construtor, ao contraposto do modelo masculino basicamente dominador.

Para o desenvolvimento de uma condição de perpetuidade e oportunidades para o futuro, dentro deste conceito de nutriente, devemos aplicar um raciocínio ecológico, em contraponto ao pensamento cartesiano clássico, pensando em um mundo de recursos exauríveis, orgânicos e espirituais, sejam da natureza ou da capacidade de absorver as injustiças sociais.
Para poder entender e aplicar este pensamento, se faz crucial ativar a percepção, sendo que se somente as bordas da percepção aparecessem, tudo se desvendaria como realmente é.

Nesta forma sistêmica de pensar, identificamos os pilares como sendo as conexões, tudo se interconecta, formando mesmo com seus vazios e sem condições de definições exatas, a solidez da matéria, do pensamento e da estrutura do universo tangível. O que não vemos, o que não entendemos, necessariamente não pode ser abominado, relegado , sob pena de nossa cegueira estar baseada somente na miopia da falta de abertura para o novo.

Somos todos uma parte da teia imensurável e inseparável da relações, é nossa responsabilidade perceber as possibilidades do amanhã, pois antes de tudo somos os únicos responsáveis por nossas descobertas, nossas palavras, nossas ações, e os reflexos das mesmas no universo em que estamos inseridos.

Devemos entender e abrir nosso horizonte, para modelos sistêmicos, escapando do conforto dos processos, onde temos o controle, mas muitas vezes não a compreensão. Cabe dentro deste preceito teorizar sobre os sistemas vivos, onde temos o exemplo do homem que mirava uma árvore, mais do que caule, raízes, galhos e folhas, descobria vida, insetos, oxigênio, nutrientes, alimento, sombra, proteção, energia, uma síntese de integração.

O princípio para esta abertura é ver o todo, e antes de fracioná-lo entender sua conexão, interatividade, integração. Devemos ver o impacto global de nossa existência individual, nunca esquecendo que vivemos ciclos contínuos, renovação.

Um obstáculo para a expansão este pensamento é a clara e objetiva descoberta da interdependência, do fato de que mesmo sem o controle por parte de nossas ações, que nosso planeta flui em um processo vivo, se adaptando, transcendendo, progredindo, transgredindo padrões, evoluindo.

O pensamento voltado aos processos e não as estruturas, nos dá a ferramenta essencial para poder entender o princípio, os porquês e o caminho possível para esta evolução, conseguindo assim delinear a tênue e interlaçada margem entre o pensamento clássico cartesiano e o sistêmico totalmente integrativo, plotando o objetivo mestre das sociedades modernas, das mentes que buscam a perpetuidade no futuro: o desenvolvimento sustentável, a busca do equilíbrio.

Autoria do resumo: Cléber Agnaldo Arantes

Eis um pequeno trecho:

sexta-feira, 2 de abril de 2010

Teoria da Conspiração



Vale a pena conferir este livro de Armindo de Abreu... Eis um pequeno trecho...

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“Informações reservadas aconselham cautela até o ano de 2002. Pelo menos.Nascido em língua alemã, no século XVII, Gottfried Leibnitz demonstrou que tudo aquilo que existe, existe como consequência de alguma causa, não por leviandade. Bem antes disso, lá pelo século V a.C., nascido em Estagira, Aristóteles não demonstrou, mas sustentou que tudo que existe, existe dotado de alguma finalidade. Assim, por artes de Aristóteles e Leibnitz, estabeleceu-se que os acidentes de cada uma de nossas vidas não são acidentes coisa nenhuma: acontecem por alguma razão e visando objetivo preciso. De onde se segue que se inventou o conceito de paranoia para iludir pios, convencendo-os de que os males que porventura os assaltem devem ser creditados à má fortuna. Deslavada mentira. Tudo, rigorosamente tudo que interfere em nossas existências deve-se à iniciativa de alguém tendo em vista resultados muito claros. Na maioria das vezes, tais resultados são escusos. Fique tranquilo, faz todo sentido viver assustado”.

(Insight-Inteligência nº 10)

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Para mais, visite:
http://www.armindoabreu.ecn.br

quinta-feira, 1 de abril de 2010

Conto

Este conto foi um divisor de águas em minha vida... Agradeço a Deus por tê-lo encontrado e o autor por ter escrito... Não concordo com tudo, mas ele mudou minha vida! Leia e retenha o que for bom!
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QUEM SOU EU? QUEM É DEUS?

UMA AVENTURA EM SOLO PSÍQUICO

Quando o carro desgovernou, Júlio César refletiu numa fração de segundo sobre as advertências de não se utilizar telefones celulares e dirigir ao mesmo tempo. Era precavido, mas esquecera o aparelho ligado e não resistiu a tentação de atendê-lo. Agora, com o veículo fora da pista e descendo desfiladeiro abaixo trepidando sobre pedras e tocos de árvore, isso não era mais tão importante. Naquele momento era muito difícil pensar.

O prejuízo financeiro já era considerável, pelos sons dos impactos poderia-se concluir o fim de cubos de rodas, eixos de tração e suspensão, destruídas ao atropelar pedregulhos num terreno desnivelado, cair em buracos e se emaranhar em galhos rasteiros. A lataria também já estava implacavelmente arranhada e os faróis dianteiros quebrados como ele pôde perceber após um impacto que os fez se apagar. Mas nada disso importava agora.

Finalmente uma árvore grande e resistente encerrou a louca descida do veículo morro abaixo além da estrada. O forte impacto destruiu completamente o motor e galhos grossos entraram pelo pára-brisa. Na noite escura, a fraca iluminação amarelada de distantes postes na estrada não foram suficientes para que ele visse o que realmente havia acontecido.

Milagrosamente o telefone caiu quase em suas mãos. Ainda preso pelo cinto ele não conseguia se mexer e após sentir uma dor intensa parecia anestesiado. Pegou o aparelho e com um esforço tremendo conseguiu teclar o primeiro número, o segundo, e o terceiro já com muita dificuldade e a visão turvando.

O ar terminou por lhe faltar e só brevemente sentiu o sangue em sua boca, não enxergava mais nada, soltou o telefone e ainda ouvia sons e vozes a sua volta. Pessoas vinham socorrê-lo após deixarem seus carros no acostamento.

Não tivera tempo de saber quem lhe telefonara.

Várias pessoas em volta do carro tentavam fazer alguma coisa, mas alguns já haviam percebido que não havia mais esperança. Um dos grossos e pontudos galhos da árvore entrara pelo pára-brisa atravessando o peito do motorista e varando o banco dianteiro até o banco de trás. A cena era terrível.

Durante um bom tempo Júlio César não entendia o que estava acontecendo. Viu seu carro cercado por pessoas estranhas e assustadas. Tentando caminhar no mato ele se aproximou com dificuldade do veículo e demorou para reconhecer o motorista acidentado, desfigurado pela expressão vazia e pelo sangue que escorria da boca e do nariz. O corpo teve uma breve convulsão e ele sentiu repentinamente um dor no peito incrivelmente intensa, mas após torturantes minutos, um progressivo alívio.

Já um pouco recuperado da dor e do susto tentava entender e ligar os fatos. O carro destruído era dele, o corpo morto também. No entanto estava ali, de pé, do lado de fora, sem sentir mais nada.

Polícia e bombeiros chegaram apenas para constatar que não havia mais o que fazer pela vida do motorista. Revistavam o carro em busca de pertences ou documentos e acharam o telefone.

Júlio não era uma pessoa atenta a questões metafísicas, religiosas ou místicas, mas apenas tendo assistido a alguns filmes e programas de TV já especulava sobre o que acontecera. Seria mesmo isso ou apenas um louco sonho? Estaria mesmo seu fantasma ali? Vendo a cena? Estaria de fato morto? Ou breve despertaria?

Tudo era mesmo etéreo. Ele tentava tocar as coisas mas pareciam desfazer-se em suas mãos. Notava que nem mesmo peso sentia. Seria como nos filmes? Morte ou sonho?

Sempre soube como responder a essa pergunta. Simplesmente desejou acordar, se fosse mesmo um sonho tudo estaria resolvido.

Despertou subitamente em sua cama. Para seu alívio e alegria. Sua esposa não estava ao seu lado então se levantou para procurá-la ansioso por contar o pesadelo. Mas a casa estava vazia, e as crianças não estavam na cama. E o mais estranho, era noite.

Onde estavam todos? Por que naquela noite a casa estava vazia? Era fim de semana e... Era isso! Estavam todos na casa de campo de seu irmão mais velho, para comemoração do aniversário de sua sobrinha. Costumavam dormir lá em fins de semana prolongados. Mas por que ele estava em casa?

Tentou acender a luz mas para sua surpresa o interruptor não funcionava, tentando de novo, várias vezes, percebeu algo muito pior, seu dedo é que não funcionava! Tocava no interruptor mas não conseguia pressioná-lo. Tentou outro, e mais o abajur, mas nada adiantou. A pouca luz que vinha da rua era fraca então correu para cozinha onde ficavam os disjuntores. Com a ânsia de tocar na maçaneta da porta percebeu de imediato que não conseguiu faze-lo, mas de qualquer modo entrou na cozinha.

Demorou vários segundos para olhar para trás e perceber que entrara sem que a porta se abrisse. Engolindo em seco voltou tentando empurrar a porta que por dentro podia ser aberta sem maçaneta. Estava na sala novamente, mas não sabia se a porta se abrira ou não. Não teve coragem de tentar novamente.

Soube então que havia energia na casa, o relógio do vídeo cassete estava ligado. Se recusando a pensar em possibilidades assustadoras, pensou: "Estou sonhando."

E tentou acordar de novo, mas não conseguiu. Tocou seu corpo, estava de pijama, um bem típico. Olhou para a parede e num rasgo de coragem respirou fundo e levou sua mão contra ela. A mão se apoiou.

Ele tocou! Tocou a parede! Era sólida! Seu corpo também!

Aliviado se encostou tentando entender o que acontecia, mas ao se virar para o lado, um novo susto. Estava entrando lentamente na parede, atravessando-a. Pulou apavorado novamente e com mais medo ainda, fez novamente o teste. Foi com a mão lentamente esperando encontrar a resistência de quina. Tocou-a novamente, mas percebeu que era um toque diferente, suave, então se retraiu e novamente foi levando a mão, desta vez mais rápido.

Caiu no chão desesperado quando o susto final lhe ocorrera, sua mão entrou no concreto como se este fosse uma espécie de líquido. Fechou os olhos e ficou em pânico e repetindo para si mesmo. "Quero acordar! Quero acordar!"

Então de repente, como se uma voz falasse por ele, ouviu. "Estou morto."

"Acordou" novamente, no local do desastre. Lá estava um guincho tentando puxar o carro. Ele estava com as mesmas roupas da hora em que morreu. Se sentou numa pedra, sem senti-la, e desatou a chorar.

Tudo o que ele queria era chegar na casa do irmão, encontrar a família, ver a esposa e os filhos. Pensou no Paulinho de 6 anos e em como brincavam, na Luísa, de 3 aninhos, tão linda quanto a mãe. "Jo-Joana... Me perdoe..."

Tudo o que queria era vê-los pela última vez. Fechando novamente os olhos desejou ardentemente encontrá-los, tocá-los. Então de repente, estava na casa do irmão.

As crianças brincavam no tapete, inclusive seus filhos, se aproximou tentando abraçá-las e o fez. Acariciou e beijou a todos, inclusive os sobrinhos. Mas eles não o viam, não o percebiam. Pelo menos Júlio podia tocá-los, como se ainda estivesse vivo.

Procurou a esposa e chegando a cozinha a viu chorando, junto com outros membros da família. A polícia estava lá, trazendo a péssima notícia. Pensou pela última vez que tudo era um pesadelo e sentando-se no chão se concentrou o máximo que pôde, desejando, querendo, ordenando acordar. Mas não aconteceu. Logo depois, não havia mais dúvidas.

O tempo não passava da mesma forma, num breve adormecimento, dias se passaram, e ele estava no seu próprio funeral. Caminhando ao lado da família e dos amigos, chorando bem menos do que todos, já estava um pouco insensibilizado após tanto sofrimento. E uma coisa o perturbava mais ainda.

"Onde está a Luz?!?!"

Onde estava a tal luz que deveria haver. Ele vira isso em vários filmes e ouvira falar em diversas conversas. Até mesmo as experiências de quase morte revelavam a presença de uma luz, ou um túnel. Ele não vira nada! De certa forma isso o aliviava, pois se ela surgisse teria certeza que iria para um outro mundo. Algo um pouco assustador, ainda mais agora que já estava se acostumando a ser um fantasma.

Olhava para todos os lados e para cima, procurando algo. Um portal, uma escada, talvez um anjo. "Não. Um anjo não." Se anjos existissem como dizia o cristianismo, então ele seria levado a crer também em demônios e logo em toda a teologia cristã e de acordo com suas inflexíveis regras, principalmente os 10 mandamentos, achava que tinha muito mais chance de ir para o Inferno do que para o Céu. Era o que acreditava.

Mesmo não entendendo nada de teologia, já havia descartado as hipóteses convencionais das Igrejas católicas e Protestantes. Pensava agora em termos Espíritas, e segundo estes, deveria ter sido chamado por alguém, um outro espírito, ou ficaria vagando como uma alma penada?

Mas estava no cemitério, e havia outros enterros. Onde estavam os outros fantasmas?

Não havia nada, não via nada além de tudo aquilo que sempre vira em vida. Nenhuma alma perdida lamentando a própria sorte. Ele estava completamente sozinho.

Observando a fila de pêsames que sua esposa enfrentava, as palavras que mais ouviu além de seu nome Júlio César, foram Jesus Cristo e Deus. Onde estavam eles?

Olhou para o céu e perguntou. - Deus! Onde está?!

Não obteve resposta. Existiria? E se Deus não existisse? Não deveria estar também tudo acabado? Por que continuava vivendo após sua morte?

Começou a perceber que essa questão era crucial. Quis por algum tempo ter estudado religiões como seu primo que se formara em psicologia, com especialidade com comportamento religioso. Quando o observou, percebeu que fora dos poucos que não mencionara a palavra deus, provavelmente era ateu.

Júlio nunca se considerou ateu, costumava se declarar agnóstico embora não entendesse bem o que isso significava, em algumas circunstâncias como quando sob pressão das tias, se declarava católico não praticante, embora não tivesse a menor idéia do que seria a Santíssima Trindade ou qualquer dogma básico do cristianismo.

Acompanhando o cortejo de volta foi até a missa, quem sabe lá haveria uma resposta. Entrando na igreja, se deparou com as enormes imagens dos santos, ouviu o sermão do padre, até menos chato do que de costume. Procurou um sinal, uma luz, mas nada havia.

Ouviu falar então na Ressureição, que só agora via ser totalmente diferente da Reencarnação. Os mortos na verdade renasceriam no dia do Juízo Final e só então se lembrou quando um evangélico que pregava na rua lhe mostrou passagens da Bíblia que declaravam que os mortos nada sabiam, não tinham consciência de nada, só renasceriam no dia do Juízo.

Então como poderia ele estar desperto e cônscio?

Não tinha mais dúvidas, o cristianismo e seus dogmas milenares não tinham a resposta. Saiu da igreja vagando pela rua, seu condicionamento após 40 anos de vida física o faziam caminhar como qualquer vivente, seguindo as calçadas e contornando obstáculos.

Chegou a frente de um enorme templo ecumênico em forma de pirâmide. Daqueles que misturavam deuses egípcios com terapias alternativas, cristais, discos voadores e tudo o mais. Sabia serem eles em geral reencarnacionistas e uma vez que a idéia da ressureição já estava superada, passou a dar algum crédito ao espiritismo e similares.

Percorreu salas, ouviu pessoas conversarem, olhou painéis e textos nas paredes. Viu pessoas aplicando sessões de passes e cumprimentando os espíritos desencarnadaos presentes. Só poderia ser ele, pois durante todo o tempo ele não vira sequer um só espírito. Ele era o único. Solitário. Adoraria encontrar alguém para conversar mas ninguém o ouvia, ninguém o via.

Riu quando percebeu que muitos dos rituais, como o passe, que pressupõem a presença de entidades espirituais, eram realizados sem qualquer apoio do além. Todos estavam sozinhos. Porém uma dúvida lhe ocorreu. Seria ele um espírito sem capacidade de ver os outros? Talvez estivessem presentes sim, outras entidades, mas mesmo morto ele não podia vê-las. Será que nem depois da morte ele teria respostas?

Quanto ainda teria que esperar para que pudesse aprender alguma coisa, saber por que vivera, qual era o sentido da vida?

Sentiu novamente uma forte ansiedade e caminhou até o centro da nave do templo, o centro de uma pirâmide que ao alto possuía um cristal, e então gritou: - MEU DEUS!!! ONDE ESTÁ VOCÊ?!?!?

O silêncio era a resposta.

Passada uma fase onde ficara muito tempo observando sua família e lamentando, decidiu que era hora de procurar respostas de forma sistemática. Teve a idéia de que vivia o resultado de seu total desinteresse pelo tema quando vivo, talvez as pessoas que procuram por isso em vida sejam privilegiadas depois da morte.

Foi a uma biblioteca onde muitas pessoas estudavam, a maioria jovens, procurou a seção de livros sobre religiões. Após se decepcionar também com o espiritismo, começou a apostar nas doutrinas orientais. O primeiro livro que lhe chamou a atenção foi sobre Budismo, tentou pegá-lo.

Simplesmente riu quando, surpreso, ficou imaginando como poderia ter achado que seria capaz de tocar num livro como se ainda tivesse um corpo físico. Era obvio que não poderia. Voltou para a sala de estudos e ficou olhando o que as pessoas liam, a maioria estudava para provas ou concursos, estavam num centro de rica cultura e só o que se preocupavam era passar numa prova para ganhar mais dinheiro ou obter melhores notas. Só agora ele percebia o quanto desperdiçara sua vida, pois foi exatamente o que fizera.

Viu uma pessoa procurando livros na seção de religiões e teve uma idéia. Ouvira falar que mortos poderiam influenciar as decisões dos vivos e ficou dizendo no ouvido da mulher que devia pegar tal livro. Não tentou apenas uma vez mas várias, com outras pessoas e métodos diferente. De nada adiantou, ele era completamente inexistente para todos.

Angustiado, voltou a estante e ficou se concentrando, se preparando para "pegar" o livro de algum jeito. Levou a mão devagar e então... Pegou!

Mal acreditava no que acontecia, começou a folheá-lo sem se preocupar se alguém estaria vendo um livro flutuando no ar e mudando de páginas. No começo viu um monge, logo depois um lutador de artes marciais, então um ator de hollywood, mas logo percebeu que havia algo errado, um livro sobre budismo não deveria ter imagens de carros, de aviões, de praias, de mulheres de biquini, de garotas nuas!

Olhou de novo para a estante e o livro que quisera pegar estava no mesmo lugar. Olhou para o livro em suas mãos e o fechou e percebeu que a capa estava não só diferente, mas mudando de cor. Logo o livro todo parecia um caixa de imagens e cores sem sentido. Furioso o arremessou contra a parede mas o objeto se desfez antes de tocá-la, como por encanto.

Então percebeu. Repetiu uma operação semelhante e um novo livro surgiu em suas mãos, e então compreendeu que podia fazer qualquer imagem aparecer ali. Desejava ver casas e via, pensava em futebol e logo surgia um campo com jogadores. Tinha criado um passatempo ilusório espetacular. Podia se iludir o quanto quisesse. Na verdade já havia experimentado isso antes.

Olhou para a parede e com algum esforço se concentrou e logo fez surgir uma tela de TV e nela imagens de paisagens que ele mesmo pedia. Não era algo muito exato, pensava numa montanha e surgia uma, mas não exatamente como ele pensava, era difícil manter o foco e antes que aquela brincadeira o entretesse demais ele parou.

"Não. Tenho que parar com isso." Já estava morto, desligado do mundo não podia ficar fantasiando. Acabaria por se perder na própria ilusão. Saiu da biblioteca e olhou para o céu. Era isso! Precisava voar! Até agora vinha caminhando como um ser vivo, obedecendo os limites do deslocamento físico, até mesmo pegava ônibus e metrô!

Caminhou rapidamente dando pequenos saltos e se imaginando leve, logo conseguiu saltos maiores e pouco a pouco, com muita concentração e vontade foi vencendo os 40 anos de condicionamento que o fizeram agir após a morte como se estivesse vivo.

Foram breve saltos longos, logo eram pequenos vôos. Depois estava completamente livre. A gravidade de nada valia para ele, podia levitar e se deslocar em qualquer direção e numa velocidade até o momento isenta de limite, embora não conseguisse passar muito da rapidez em que não fosse mais capaz de distingir nitidamente as coisas.

Por vezes teve fome, que chegara não raro a incomodar, mas bastava se concentrar para esquecê-la e esta, assim como a sede, desaparecia por completo. Após algum tempo de prática estava por fim livre desses resquícios da vida física. Sono por vezes sentia, mas diferente.

Percebeu que parecia se alimentar de emoções. Quanto mais feliz ficava, mais disposição tinha, voava mais rápido e atravessava obstáculos com mais facilidade. Se ficasse deprimido se sentia tão pesado que não conseguia voar e sequer atravessava uma grade. O mundo parecia voltar a lhe ser sólido.

Tudo dependia de seu estado psicológico ou sua vontade. Se quisesse podia sentir tudo do mundo físico, até o calor do sol, o frio do vento e o cheiro das flores. Podia se apoiar numa cadeira e mergulhar numa piscina sentindo a resistência e o frio da água. Mas se quisesse tudo lhe seria completamente intangível.

Só um ano depois, que não lhe parecera um ano e que só soube pela observação do eventos em sua família, compreendeu algumas regras de deslocamento. Além de se mover como se ainda tivesse um corpo físico, ele podia voar numa velocidade limitada apenas pela sua percepção do ambiente, quando tudo se tornava indistinguível ele tinha que reduzir ou acabava por passar quilômetros longe do alvo. Mas além disso podia também se teletransportar.

Percebeu que se concentrando podia surgir instantaneamente em qualquer outro lugar desde que fosse um lugar onde já estivesse estado. Quanto mais familiar lhe fosse o local mais fácil era se teleportar para lá, e não conseguia fazer o mesmo para um local desconhecido.

César entendeu que a regra era muito simples, se não fosse familiarizado com o ambiente, não conseguia visualizar seus detalhes e o deslocamento instantâneo não funcionava.

De posse desse conhecimento decidiu viajar o mundo inteiro. Sobrevoava lugares que nem sonhara existir, visitara suas cidades favoritas e conhecera países aos quais sempre desejou mas nunca pode ir, como Egito e Rússia. Visitou então o oriente, Índia, China e Tibet, aprendendo de um modo espantosamente rápido as línguas locais, na verdade parecia, as vezes, que entendia as pessoas independente de que idioma estavam usando. Passou pelo Oriente Médio onde com muito custo achou o Monte Sinai, para o qual gritou como fizera em várias outras partes do mundo: - DEUS!!! QUEM É VOCÊ!?!?! ONDE ESTÁ?!?!

Mas Júlio César não ouvia, em geral, sequer o eco de sua voz. E nunca lhe ocorreu levar a sério a hipótese que ouvira várias vezes de que "Deus está dentro de você."

Se podia visitar qualquer lugar do mundo como as pessoas vivas, podia ir também a lugares onde as pessoas não podiam, como o interior de vulcões, o fundo abissal de oceanos e desertos gelados nos extremos pólos do planeta.

Por muito tempo se ocupou de desvendar antigos mistérios da humanidade, mas mesmo tendo procurado muito nada achou de Atlântida, do monstro do Lago Ness ou de Discos Voadores.

Antes tivera uma curiosidade menos grandiosa, espionando banheiros femininos e intimidades de mulheres famosas inclusive top models e atrizes americanas. Mas logo essa fase passou, percebeu que tal como não sentia fome ou sede, seu impulso sexual estava desaparecendo também.

E também podia criar seus próprios mundos na forma de ilusões. No começo era como imaginar, depois a imaginação se tornava mais densa como nos nossos sonhos, então ficava quase tão real quanto o mundo físico. Ele criava cenários maravilhosos, animais fantásticos e mulheres divinas. Mas nem mesmo isso conseguia atrair-lhe tanto a atenção quanto o mundo real. Estava cada vez mais obcecado pelo conhecimento, pelo mistério da vida e da morte e sobretudo em saber onde estava Deus e o que tudo aquilo significava. A única ilusão que sempre mantinha, projeção de sua própria mente, eram suas roupas, que variava de ocasião como se estivesse prestes a se apresentar a alguém. Mas até agora não encontrara ninguém como ele.

Nenhuma das religiões lhe dera respostas, mesmo o Budismo que era ateu, ou o Xintoísmo, ou o Islamismo. É bom lembrar que mesmo depois de toda essa aventura ele ainda mal diferenciava uma crença da outra.

De algum modo porém, apesar de tudo lhe parecer demonstrar o contrário, Júlio acreditava que deveria existir um Ser supremo, algo que desse origem e significado a tudo. Sua vida continuou depois da morte, mas por que a dos outros não continuava? Ou será que cada pessoa ficava assim? Com o mundo todo a disposição sem poderem se comunicar umas com as outras?

Muitos anos se passaram, décadas, e concluiu que nada o impediria de viver indefinidamente. "Seria interessante." Pensava ele. "Ver o mundo se desenvolver, ver a história seguir seu curso sendo um espectador imortal. Estar aqui daqui a mil anos sabendo sobre o passado. Seria interessante."

Se não fosse a terrível solidão que sentia.

Nem só de maravilhas ele vivia. Após algum tempo passou a ver o lado ruim do mundo. Viu crimes atrozes serem praticados contra pessoas indefesas sem que pudesse fazer qualquer coisa. Viu massacres inomináveis e hediondos ceifarem milhares de vidas em guerras tão espúrias que faziam pensar o que seria pior. Ter morrido ou continuar vivendo para ver aquilo.

Ele não podia fazer nada, genocídios e torturas absurdamente monstruosas jamais chegariam ao conhecimento das autoridades. Os piores monstros que o Universo poderia conceber andariam a solta, completamente impunes quando não reconhecidos como protagonistas de grandes feitos em suas peles de cordeiro.

Ele acompanhou de perto o sofrimento de crianças sem esperança nos lugares mais miseráveis do mundo, e pensava no quanto fora felizardo em nascer em um país onde se tais coisas aconteciam eram em grau significativamente menor.

E pensava em todas as pessoas que mesmo tendo casa, comida, automóvel e salário garantido, gozando de perfeita saúde e vivendo em sociedades cujas gerações nunca viram uma guerra, ainda reclamavam como se fossem os mais desgraçados dos infelizes.

Viu em buracos imundos crianças que nasciam sem a menor perspectiva de uma vida sequer animalmente aceitável, sorrirem ante a beleza de uma flor mesmo tendo a sua volta cadáveres empilhados aos montes. Viu pessoas aleijadas e deformadas que mal tinham o que comer, possuírem mais força de vontade e alegria de vida do que muitos obesos de classe média alta em carros importados que vivam suas existências relapsas e irresponsáveis, e ainda se achavam vítimas, reclamando do governo, da sociedade e até de Deus.

E ele não podia fazer nada! Só observar e torcer.

Diversas vezes ficou caído ao chão em desespero ao ver pessoas cujas vidas lhe chamaram a atenção serem cruelmente espancadas, violentadas e mortas pelo simples fato de existirem, ante a hedionda estupidez, maldade e loucura de "criaturas", pois não mereciam ser chamadas de pessoas, que não raro sentiam prazer no que faziam.

Ele não aguentava mais, mais do que nunca queria que Deus existisse, mais do que em qualquer outra época de sua vida antes e pós morte desejava um exército divino cair dos céus arrasando tudo e renovando a humanidade.

Mas o golpe de misericórdia em sua alma atormentada veio depois.

Certo dia estava em algum país da África, havia uma linda menininha que lhe lembrava sua filha. Ele era meiga, carinhosa, inteligente e corajosa, capaz de contagiar de alegria qualquer um que se aproximasse, mas teria que ser um Ser Humano.

Quando o humilde acampamento que sequer tinha armas foi invadido por guerrilheiros e mercenários portando um arsenal que ele nunca vira, presenciou velhos, crianças e mulheres, muitas das quais grávidas, serem tratadas como se fossem a mais ameaçadora das pragas, sendo sistematicamente exterminados por tiros rajantes de metralhadoras.

Os poucos homens e rapazes raquíticos não esboçaram qualquer reação, e mesmo assim receberam o tratamento que nem mesmo seus algozes mereceriam receber. Mas os monstros não estavam saciados, precisavam torturar, massacrar e estuprar.

Ele sabia o que aconteceria ao pegarem a menina que por mais que ele tenha desejado, não conseguiu escapar. Eles iam decepar-lhe as mãos com um golpe de facão, e depois a violariam, rindo e sentindo prazer enquanto o sangue e a vida se esvaíssem de seus pulsos. Ele já vira isso acontecer.

Nunca a dor lhe atingira tão forte, o desespero, a intensa agonia do horror.

A mente do monstro era algo simplesmente inominável, uma criatura hedionda cuja categoria mereceria ser completamente extirpada do Universo mesmo que isso custasse metade das reservas naturais do mundo. Ele ergueu o facão enquanto outros dois atrozes demônios seguravam a criança, um outro já abaixava o ziper da calça.

Então sentindo algo que nunca sentira antes, ele não exatamente gritou, ele não mais se desesperou, de algum modo ele simplesmente ordenou. - PAREM!!!

Ele viu uma breve luz, e então os agressores hesitaram, olhando para os lados, tentando achar algo. Repetiu a ordem.

- Soltem ela! Agora!!! - E os algozes ficaram assustados, como se uma voz viesse de todas as direções. Recuaram e soltaram a criança, que rapidamente correu para o mato.

Compreendendo que algo de novo acontecera, olhou a sua volta e ordenou novamente, com toda a firmeza de seu Ser.

- PAREM!!! SAIAM TODOS DAQUI!!!

A maioria pareceu ter percebido algo. Houve uma breve confusão, suficiente para que muitas pessoas escapassem de seus carrascos. Alguns destes chegaram a disparar a esmo e alguns tiros atingiram uns aos outros.

Os momentos foram tensos, até que por fim a tropa começou a se retirar. Exércitos adversários se aproximavam, não sabia se eram do governo ou da ONU, mas eram a salvação.

César respirou aliviado. Respirou! Algo que por falta de hábito não fazia há muito tempo.

Será que finalmente Deus ouvira sua voz?

Ele precisava investigar isso. Precisava pensar. Estava farto do mundo e de não achar Deus, só queria o silêncio e a paz.

Rumou para o meio da selva, mas havia muitos ruídos de animais. Foi ao deserto, mas mesmo lá o vento atrapalhava.

Após décadas indo onde quisesse, se tornou um tanto exigente quanto a tranquilidade de um ambiente quando queria paz. Poderia inclusive cortar a percepção de tudo a sua volta, mas de um modo ou de outro ainda podia senti-lo de forma inexplicável. Nem mesmo o fundo do mar ou as profundezas da Terra eram suficientemente calmas.

Olhou para o céu e lembrou de uma música que dizia:

"...que lugar mais silencioso,
eu poderia no Universo encontrar,
que não fossem os desertos da Lua,
pra recompor meu mundo, bem devagar..."

E subiu aos céus. Já havia estado no espaço antes mas nunca tão alto. Olhou para baixo vendo o planeta azul que agora conhecia tão bem. Estava cansado daquele mundo. Embora houvessem tantas maravilhas, não conseguia compactuá-las com tantas desgraças. A maldade por vezes, lhe parecia pesar mais.

Nunca pensara que seria tão difícil chegar a Lua, tinha que ir voando é claro, mas a ausência de referência de deslocamento era irritante. Por mais rápido que ele se movesse, ou que pretendesse se mover, parecia não fazer a menor diferença.

Insistiu muito até conseguir notar um aumento na imagem do satélite. Por várias vezes pensou em desistir mas por fim, conseguiu ir mais rápido, até que a Lua fosse tão grande que não mais lhe lembrava o pequeno astro do céu ao qual apenas 12 homens, até hoje, chegaram a ir.

Se ele não encontrara Deus em nenhuma parte do mundo, quem sabe fora do mundo.

Para sua incomensurável surpresa, ao escolher um local para pousar achou justamente o Mar da Tranquilidade, exatamente onde estiveram astronautas americanos. Achou uma base do módulo Eagle e logo em seguida com incrível facilidade se teleportou para o ponto onde Neil Armstrong e Buzz Aldrin, os primeiros homens na Lua, estiveram. Se deparando inclusive com a bandeira dos E.U.A.

Deduziu então algo que já lhe ocorrera. Na verdade era possível, embora muito difícil, se teletransportar a algum lugar onde ele não houvesse ainda ido, mas teria que ser um local onde ele pelo menos já tomara conhecimento, de preferência já tendo visto. Como televisionou o pouso do módulo lunar na Lua, já tinha visto pelo menos remotamente o local, na falta de qualquer referência melhor foi atraído diretamente para lá.

Mas não estava nem um pouco interessado nisso, levantou vôo contemplando a Terra uma última vez e pousou do lado escuro da Lua, no meio de uma imensa cratera.

Mesmo aprimorando sua percepção ao máximo não ouvia absolutamente nada, claro, não havia ar. E claro que tudo era escuro, a não ser as estrelas no céu que realmente pareciam mais brilhantes. Nenhum movimento, nenhuma presença, nenhuma forma de vida.

Nunca ele esteve tão sozinho, e tão em paz. Agora era só ele, e ele mesmo. Agora podia olhar para dentro de si. Pela primeira vez decidiu levar realmente a sério a proposição de que Deus estava em seu interior.

Após muito tempo de quietude decidiu lançar mão de seu pouco utilizado potencial para ilusão. Dentro da cratera circular, fez surgir, virtualmente, uma chão liso, plano e espelhado e em seguida uma imensa abóbada transparente. Começava a construir o seu palácio.

Não tinha muita coisa, ele não precisava de muito luxo. "Criou" algumas paredes, um corredor, um teto, coisas que o isolavam ainda mais da realidade. Agora nem mesmo a luz das estrelas parecia lhe chegar.

Tratava-se puramente de manipular a percepção, ou pelo menos era o que ele pensava até o episódio de hoje ocorrido na África. Teria mesmo ele de fato desencadeado um fenômeno no mundo físico, ou apenas se iludido? Teria a pobre criança sido torturada e morta enquanto ele acreditava ver outra coisa?

Já fazia mais de 10 anos que ele deixara o corpo físico, e o tempo não corria da mesma forma. Ele sentia que estava suficientemente desenvolvido em suas percepções para diferenciar a realidade de ilusão. Tinha certeza disso, portanto agora só precisava entender como.

Já há algum tempo vinha tendo uma sensação estranha, como se algo ou alguém o vigiasse, cada vez mais achava que não estava sozinho, mas cria que tal sensação se dava ao fato de ter estado tão envolvido com o sofrimento das outras pessoas. Talvez as emoções fortes tivessem abafado uma intuição que o dizia novamente para procurar Deus, de forma ainda mais profunda.

Esse era o lugar ideal. Não gritou, mas perguntou: - Deus? Onde está você?

- "Deus está aqui."

Ele ouviu uma discreta resposta, quase um sussurro. Estava tão desacostumado a conversar que já nem sabia mais o que dizer. Olhou novamente a sua volta expandindo a percepção e perguntou novamente. - Onde está você?

- "Aqui."

- Aqui onde?

- "Em toda parte, inclusive dentro de você."

- Quem é você?

- "Eu não sou Deus."

- Então quem é?

- "Sou você."

- Eu?!

- "Uma parte de você. Que sempre esteve aqui. Esperando o momento de lhe dizer isto."

- Estou falando comigo mesmo?!

- "Após tanto tempo de solidão isso seria de se admirar?"

- Então de que adianta? Você não terá respostas.

- "E você acha que se conhece tão bem assim? A ponto de desperdiçar uma conversa consigo mesmo?"

- O que você sabe que Eu não sei?

- "Muitas coisas. Pra começar quem eu sou."

- Como posso não saber algo que você sabe, se você sou eu?

- "Por que você ainda não se conhece plenamente, não conhece seu inconsciente. Não conhece sua verdadeira natureza. Uma parte de você sabe coisas que a outra não sabe. Eu sei coisas que você não sabe e você também sabe coisas que eu não sei. Então podemos conversar muito bem, como se fóssemos desconhecidos, mas como teremos muita afinidade, seremos grandes amigos, cada vez mais íntimos até sermos um só. Até você ser completo."

- Mas e Deus? Quando irei, ou iremos, conhecê-lo?

- "Somente após conhecer a si mesmo você pode conhecer a Deus."

- Mas Deus não está dentro de mim? E talvez também de você?

- "Claro. Mas isso não basta para percebê-lo. Se você antes não me percebia, eu, que sou uma parte de você, como espera perceber Deus?"

Aquele que outrora se chamara Júlio César não mais usava seu nome há tanto tempo que não mais sentia falta. E agora, nessa grande oportunidade de diálogo, que ele sentia ser perfeitamente válido, bastava se referir a ele próprio como a única primeira pessoa que existia. Estava aberto ao diálogo, mas precisava torná-lo mais pessoal.

Após tanto tempo de solidão, cabia produzir uma aparência para aquele seu alter ego, mas um outro "ele" seria muito estranho, e as vezes não se sentia preparado para conversar com outro Ser Humano. Então projetou uma espécie de esfera flutuante, semelhante a um olho mas com uma certa simpatia. E olhando para ele perguntou:

- Então... Sobre o que iremos conversar?

Caminhando pelo corredor que ele mesmo projetara, rumo a uma luz ilusória, ele estava indeciso sobre o que perguntar.

- Nem sei por onde começar.

- "Que tal pelo começo? Pela morte de seu corpo físico?"

- Uma boa idéia mas... Sempre esperei respostas mais diretas, sempre esperei Deus.

- "Você queria ver Deus? Então me responda, por que não viu a luz?"

- Que luz?

- "Ora, a luz. Aquele que você esperava que aparecesse."

- Mas ela não apareceu!

- "Sim. É essa a minha pergunta. Por que não quis que ela aparecesse?"

- Mas eu quis... Quer dizer...

- "Tem certeza?"

- Bem, eu. Na verdade tive medo.

- "É isso!"

- Mas como eu poderia faze-la aparecer?

- "Como você fez a mim aparecer? E a todo este palácio?"

- Mas você é uma projeção da minha mente!

- "O que você acha que a luz seria?"

- O quê? Você está dizendo que eu devia criar a luz, criar uma ilusão?"

- "Exatamente."

- Mas... Eu esperava algo divino! Não uma ilusão!

- "Por que não?"

- Por que teria que ser real, uma luz real para um outro mundo real! Não para um mundo de fantasia.

- "Tudo o que você pode ver no mundo que chama de real não vê você. É uma relação indireta. Você toca, sente, ouve, mas nada interage com você. Por outro lado em seus mundos ilusórios, existe total interação. Você toca, vê, sente o cheiro, e tudo a sua volta se você quiser, também te vê, como eu. A interação é recíproca. Diante disso, o que lhe parece mais real?"

- Mas então é isso?! O paraíso e o julgamento, ou o inferno... Tudo seria criação minha?

- "Sim."

- Mas... Eu nem sequer conseguia produzir ilusões naquela época!

- "É apenas uma questão de vontade. Assim que você perdeu seu corpo físico, desejou estar em casa, e lá esteve, vestindo um pijama ilusório. Você sempre teve a capacidade de criar seus próprios mundos. Apenas demorou para perceber isso."

- Mas e se eu criasse sem saber que era ilusão? E se pensasse que tudo era real?

- "É essa a idéia."

- Eu realmente não estou entendendo.

- "Você nunca acreditou firmemente em nada quando vivia fisicamente. Se fosse um cristão convicto, que tivesse plena fé na ressureição, assim que percebesse sua morte estaria no dia do Juízo Final, vendo estrelas caírem do céu e a volta de Jesus. Se acreditasse que iria para o purgatório, teria exatamente essa experiência. Se acreditasse em reencarnação, teria criado a experiência de reencarnar. Mas você não tinha nenhuma dessas idéias, tudo o que você esperava vinha de filmes que você viu, mas mesmo assim estava indeciso e confuso."

- ...Então... Todo o meu destino seria criado por mim mesmo?

- "Sim."

- Mas e aí? Ficaria vivendo uma ilusão maluca sem nunca tomar contato com a realidade? Como iria conhecer Deus?

- "É preciso conhecer a si mesmo para conhecer Deus."

- E faria isso me iludindo?

- "Exatamente."

- Como?!

- "Tudo em suas projeções fantásticas são produto de sua mente. Você manifesta não só aquilo que quer e que sabe que quer, mas com o tempo, também aquilo que não quer ou nem sabe que quer, mas que também fazem parte de você. Perceberia, se desenvolvesse mais seus mundos, que logo muitas coisas pareceriam acontecer a sua revelia, contra a sua vontade, mas na verdade seriam manifestações de coisas de seu inconsciente, que parecem saber coisas que você não sabe. Seria a maneira mais direta e mais prática de se conhecer plenamente. Um dia perceberia a verdadeira dimensão dessa ilusão, cedo ou tarde compreenderia que tudo faz parte de você, então estaria de fato conhecendo a si mesmo, que é o primeiro passo para conhecer Deus."

- Não posso acreditar. Quer dizer que a resposta para tudo era me iludir?

- "Se tivesse começado assim que seu corpo morreu não saberia que estava se iludindo, já estaria a meio caminho."

- Mas e agora? Está tudo perdido?

- "Claro que não. Você pode começar a hora que quiser."

- Mas agora eu saberei que tudo será projetado pela minha mente.

- "Sim, será um caminho diferente. Mas também válido. Nem melhor, nem pior, nem sequer mais ou menos rápido ou eficiente, mas com certeza válido, e diferente."

- Será... Pensando bem, faz sentido. Procurei por anos no mundo real e nada achei, por que eu...

- "Fugia de si mesmo."

- Sim. Se me fechasse em minha ilusão seria a forma mais eficiente de conhecer a mim mesmo, pois seria o meu próprio mundo. É claro! Faz sentido! Mas... E o mundo real? Com todos os seus problemas? Eu gostaria de ajudá-lo!

- "Acha que pode?"

- Sinceramente, acho que não. Mas Deus poderia!

- "Quer conhecer Deus? Conheça primeiro a si mesmo."

- Está bem. É o que farei. Sempre fui mesmo tentado a criar meu mundo de fantasia e ficar dentro dele, só não o fazia por peso na consciência. Mas agora...

- "O que foi?"

- Espere aí!!! Como saberei se o que diz é verdade!?!? E se você estiver me enganando ou eu já estiver me iludindo?!

- "Sinta se o que digo faz sentido. Você mesmo descobrir? Saber sobre Deus, sobre mim, sobre você? Só há um caminho."

- Claro. Conhecer-me.

- "Então? O que estamos esperando?"

Primeiro ele pensou em criar seu mundo ali mesmo, na Lua. Mas depois achou que ainda estava muito perto da Terra. Talvez Marte? Não. Tinha que sair do Universo real. Foi então para o espaço e se isolou por completo da realidade. Até que a sua volta só restava um imenso vazio negro. O Nada.

Ordenou a ausência de tudo de forma tão convicta que até ele mesmo desapareceu, isto é, seu corpo etéreo. Era apenas uma consciência, um foco de luz na escuridão.

- Primeiro quero meu corpo de volta.

- "Ainda não percebeu que seu corpo também é uma ilusão?"

- Isto é... Meu corpo etéreo? Que conservei após a morte?

- "Sim. Você é apenas um espírito, uma mente. Seu corpo também é uma projeção."

- Então posso ter qualquer corpo! É claro! Assim como qualquer roupa!

Se concentrou e seu corpo passou a surgir novamente, viu suas mãos se materializando, sentiu seu cabelos e sua pele. Criou um espelho e se olhou. Era sua velha aparência.

- "Por que não faz algo diferente?"

- Deixe-me ver... Que tal mais jovem.

Da aparência de um homem de 40 anos, embora bem conservado, passou a aparentar um rapaz de vinte, quis ser maior e seu corpo atingiu uma estatura e um modelo Apolo. Mas logo se achou ridículo. Preferiu aparentar 30 anos, menos forte mas de aparência mais austera. Acrescentou bigode e barba, ficou parecendo Jesus Cristo. Então tornou os próprios cabelos brancos.

- Ei! Estou parecendo Deus!

- "Acha que Deus tem essa aparência?"

- Bem eu... Ah! Posso mudar a hora que quiser! Vamos criar um mundo. A primeira coisa que farei é... No princípio, crio os Céus e a Terra.

Criou um horizonte plano infinito, se estendendo a todos os lados, então tornou o céu azul e com nuvens. Ordenou a gravidade e a resistência do ar. Então percebeu que havia algo estranho. Voou e fez a terra se curvar até se tornar uma esfera envolvida por gases. Criava um planeta. Fez a terra se deformar dando origem a montanhas e planaltos, abriu espaço que preencheu de água. Pousou de novo e foi sobrevoando e criando jardins e florestas. Tudo muito parecido com a Terra. só depois percebeu que a luz vinha de todo o lugar e pensou em criar um Sol. Percebeu que era muito mais simples criar um que girasse em torno do planeta do que por o planeta para girar em torno de si mesmo e em torno do Sol. Então mudou de idéia, esse seu mundo seria diferente. Seria sempre dia, um pouco mais suave, e tornou o brilho do céu mais tênue.

- Não. Ainda assim está muito parecido com a Terra.

- "Faça algo diferente."

E tornou o céu esverdeado, em alguns pontos lilás, até que decidiu que o céu mudaria ciclicamente de tons verdes para rosa. Agora criava os animais, alguns semelhantes aos do mundo real, muitos gatos e cães, alguns dinossauros, aves exóticas, unicórnios e outras criaturas fantásticas que ele mesmo inventou. Com fauna e flora criada, era hora de fazer os seres inteligentes.

Então fez surgir o primeiro casal, e muitas crianças. Eram humanas mas acrescentou alguns retoques como cabelos de cores diferentes e peles reluzentes. Logo criava centenas de seres vivendo e se relacionando. Definia a personalidade de alguns deles mas os outros pareciam se desenvolver por conta própria.

Após muito tempo seu mundo estava densamente povoado. Mesmo sem pensar nos detalhes, estes surgiam. Percebeu que os seres se reproduziam, se alimentavam e se comportavam de forma semelhante a que ele já estava acostumado a ver na Terra. Suas criações tomaram vida própria e com o tempo já o surpreendiam.

Caminhava por entre seus seres como se fosse um deles e percebia coisas que jamais pensara em criar. Eles se desenvolviam muito rápido. Percebeu também hábitos que ele não queria que existissem. Alguns estavam brigando, desenvolvendo sentimentos hostis. Ele não queria isso no seu mundo, queria um paraíso e então interveio.

Chegou a descriar alguns dos seres. A outros teve que se revelar e chamar a atenção pessoalmente. Era impressionante como alguns desenvolviam personalidades imprevisíveis. Escolheu alguns que eram melhores e os nomeou como seus assistentes.

- "Por que não dá algo a eles?"

- Uma orientação?

- "Sim."

E criou livros sagrados para serem seguidos por todos. Apesar de querer fazê-lo, não podia estar em todos os lugares ao mesmo tempo. Para manter seu mundo na linha teve que impor certa autoridade, e a medida que os seres se desenvolviam foi ficando cada vez mais difícil. Então chamou seu outro eu para conversar. Aquele olho flutuante já estava lhe cansando então acrescentou outro olho, uma boca e logo uma face completa com expressão. Era pouco, criou então uma espécie de filho de si mesmo, semelhante a ele mas distinto. E perguntou.

- Não pensei que seria tão difícil! Por mais que eu tente as criações escapam do meu controle.

- "Ninguém disse que era fácil."

- Quando eu menos espero já está tudo saindo dos trilhos. Eles desenvolvem hábitos estranhos, eu os repreendo mas logo os hábitos voltam em outras ocasiões ou lugares. Quanto mais deles, mais difícil fica.

- "Que tal reduzir um pouco a população? E começar de novo?"

- É... Se este não está dando certo.

E enviou um força misteriosa que destruiu milhões em seu mundo, fazendo-os renascer de novo numa outra forma. Depois se arrependeu ao ver tanto sofrimento e decidiu não mais puni-los com força. Reorganizou as sociedades e enviou criaturas especiais, semi-deuses, e leis, e sacerdotes, e governantes.

Mas assim como é difícil controlar os próprios pensamentos, ele não conseguia manter seu mundo sob controle, coisas que ele não queria acabavam acontecendo. Por mais que interferisse mais complicado se tornava, já estava ficando farto de tudo aquilo.

- Eu simplesmente desisto. Não consigo fazer dar certo.

- "Irá começar de novo?"

- Adiantou alguma coisa? Quanto mais eu tento mais complicado fica. Acho que minha presença mais atrapalha do que ajuda.

- "Esse é seu mundo. Sua criação. Uma representação de tudo que há em sua mente. Não lhe disse que você não se conhecia? Mas agora já está aprendendo."

- Começo a entender também como Deus deve se sentir. Será por isso que o mundo real é tão confuso?

- "Esse é o segundo passo. Após conhecer a si mesmo, terá que entender Deus, e tudo o que ele passa."

- É isso! Agora vejo quão difícil é criar e controlar um mundo. Começo a entender Deus. Mas será que ele não é melhor do que eu? Será que não consegue... É claro que não consegue. Se não o mundo real não seria daquele jeito. Pensando bem, Deus não deve ser tão diferente de mim.

- "Você finalmente está entendendo."

- Houve épocas em que eu achava que Deus era mau, ou incapaz. Bem, minhas criações devem estar achando o mesmo de mim. Sabe o que vou fazer?

- "O quê?"

- Seguir o exemplo dele. Vou abandonar meu mundo a sua própria sorte. Como ele mesmo fez. Desaparecerei e voltarei daqui a alguns séculos, ou talvez nem volte. Sei lá!

- "Deixe alguma coisa para eles."

- Sim claro! Mandarei uns últimos profetas, nobres, leais, poderosos e carismáticos. Deixarei novos ensinamentos. Vejamos como eles se saem. Agora tenho certeza de que foi isso que Deus fez. Abandonou o mundo, farei o mesmo e veremos o que acontecerá. Tal como ele, os novos ensinamentos que deixei profetizarão a minha volta, mas é claro que nada de punição eterna, inferno ou seja lá o que for.

- "E para onde irá?"

- Bem. Faz tempo que não vejo o mundo real. Tentei entender a mim mesmo e acho que só o que consegui foi a compreensão de minha própria limitação. Imperfeito por imperfeito...

E abandonou seu mundo. Fez um grande esforço para conseguir voltar ao Universo original, mas logo estava no espaço, entre a Terra e a Lua. Durante algum tempo pensou em ir a outro lugar, criar um outro mundo e ver se conseguia um resultado melhor. Pensou nisso mais de uma vez, que poderia ficar viajando pelo Universo ilusório, criando mundos diferentes, mas de algum modo já estava farto daquilo. Queria uma resposta de qualquer jeito.

Ao se aproximar da Terra percebeu que havia algo errado. Não sabia quanto tempo estivera fora mas não poderia ser tanto a ponto de haver alterações na geografia do planeta. Havia muitos satélites em órbita, muito mais do que vira antes. E então percebeu, alguns estavam atirando, disparando LASERs na superfície. Então olhou para um dos continentes e viu clarões.

Era a guerra! A Terceira Guerra Mundial! O Apocalipse! O Dia Do Julgamento!

Era agora! Deus deveria voltar! Esse era o momento.

Ele desceu à superfície e viu cidades inteiras arrasadas, bilhões de pessoas mortas, o céu ficando avermelhado e colunas de fogo que pareciam alcançar o infinito.

Viu o pânico da população multiplicado ao extremo, o desespero nas ruas, gente correndo e se atropelando, fogo em toda a parte. Alguns nem fugiam mais, apenas se entregavam à desgraça.

Diante de tanta insanidade, alguns queriam apenas viver os últimos prazeres da vida. Ele viu homens pegando meninas, prestes a praticarem algo que lhe fazia lembrar o dia em que decidiu deixar a Terra. E novamente disse: - PAREM!!!

E dessa vez não foi apenas um som que atingiu as pessoas, foi uma força muito maior. O chão estremeceu e muitos ficaram paralisados. As meninas passaram de vítimas a agressoras, aproveitando a imobilidade de seus antes algozes. Ele também não queria isso, e ordenou novamente.

Toda a cidade ficou congelada e ele voou. No céu viu um míssil prestes a atingir uma das cidades que ele mais gostava, uma das que se houvesse justiça divina, deveria ser poupada do apocalipse. Agiu sem pensar, ergueu a mão em direção ao artefato e o fez se desintegrar por completo.

Pousou na cidade confuso. O que estava acontecendo? Por que agora podia controlar o eventos no mundo real como se fossem no mundo ilusório? Sabia que não estava num mundo de ilusão.

A cidade estava caótica, as ruas desertas e mal cuidadas. O que acontecia?

- O que está havendo? Por que tenho esses poderes?

- "Prática! Você praticou muito ultimamente."

- Mas pratiquei no mundo ilusório.

- "Por que acha que é tão diferente?"

Algumas pessoas saíram de suas casas olhando para o céu e perguntavam por que o míssil não chegara. Estavam esperando a morte. Um pequena multidão se juntou e começou a discutir. Alguns carregavam Bíblias na mão e entoavam cânticos, outras surgiram com o Alcorão. Umas tentavam converter a outras a força. Era o Juízo Final, e outras que não acreditavam em nada daquilo preferiam praticar saques, ou ficar sentadas em algum canto. Uma luta se iniciou, livros sagrados viraram porretes. Outras pessoas entraram na confusão. Entre os gritos ele ouvia "Jesus Voltará!".

- Será que eu poderia?

E numa onda de concentração se materializou perante todos, flutuando no ar. Todos ficaram paralisados.

- O que é que vocês estão fazendo?!?! - Pousou entre as pessoas. - Já não basta?!

Mas alguém gritou: - É o anticristo! - Outros disseram - Cristo voltou! - E outros - Louvado seja Alá. - E também - O messias! - E ainda - É o próprio Satanás!

E começaram a avançar sobre ele, numa paranóia totalmente descontrolada. Alguns queriam beija-lo, outros queriam agredi-lo com cruzes e bíblias. Havia uma confusão total. Então ele gritou: - AFASTEM-SE!!! - E uma onda os varreu para longe.

Subiu aos céus e viu que a tal cidade se tornara um inferno, ao vê-lo no ar as pessoas não reagiam nada bem e uma terrível tristeza o abateu.

- Não! Chega! Eu não vou aguentar mais isso!!! Eu deixei este mundo por causa disto! Criei um outro para fugir disto e não adiantou. E agora quando volto... Isto... CHEGA!!!

E uma onda de luz varreu a cidade fazendo-a desaparecer por completo, só restou um chão vitrificado e fumegante. Desceu e se ajoelhou.

- O que é isso?! Qual o significado?!

- "Pergunte para Deus?!"

- E onde?! Onde está Deus?!

Olhou para o céu e gritou com todas as suas forças. -DEUS!!! ONDE ESTÁ VOCÊ?!?!?

Então uma luz brilhante inundou o céu, um imenso sol branco se aproximou, e então...

- EU ESTOU AQUI!

- "É Ele."

- Deus!?!?

- SIM.

- "Não se preocupe. É Ele mesmo."

- Finalmente! Finalmente apareceu! Por que demorou tanto?!

- POR QUE VOCÊ NÃO ESTAVA PREPARADO.

- Preparado para quê?

- "Primeiro era preciso conhecer melhor a si mesmo. Foi o Primeiro passo. Depois foi preciso entender Deus, perceber como é difícil para ele. Foi o Segundo passo. E agora está prestes a dar o Terceiro Passo."

- E qual é o Terceiro Passo?!

- SE LEMBRAR!

- Me lembrar de quê?!

- "Você percebeu o quanto é imperfeito, conheceu sua própria limitação, mas ao mesmo tempo percebeu o quanto é capaz de criar, o quanto é mais poderoso do que imaginava."

- CONHECEU A SI MESMO.

- "Depois percebeu que mesmo sendo um deus, mesmo criando o seu próprio mundo, não conseguiu faze-lo como desejava, e percebeu que mesmo sendo Deus, era imperfeito. E concluiu que como o mundo real também era imperfeito..."

- Deus também não é perfeito!

- ENTENDEU DEUS.

- "E agora o passo mais delicado, e talvez o mais difícil."

- SE LEMBRAR.

- Me lembrar de quê?!

- "Se lembrar..."

- SE LEMBRAR...

- Me lembrar...

- "De Quem você é..."

- DE QUEM VOCÊ É...

- De Quem Eu Sou...

- "Pois Você é o que é..."

- EU SOU O QUE SOU...

- Eu sou o que sou...

- "Se lembrar quem vocês são..."

- SE LEMBRAR QUE NÓS SOMOS...

- Me lembrar que Nós Somos...

- Que Nós Somos...Que Eu Sou...QUE EU SOU DEUS!!! EU SOU DEUS... EU SOU DEUS.

"Finalmente EU ME lembrei. Quando criei o MEU mundo ilusório, estava apenas recordando o que fiz há muito tempo. Quando criei o Mundo. ME lembrei que criei as águas, A Terra, os Céus, o Sol e as Estrelas. ME lembrei que criei os seres vivos e os humanos. ME lembrei que mesmo desejando a perfeição, ela me escapava. Que por muitas vezes tentei fazer o mundo perfeito e não consegui. E não foi só uma vez."

"EU era sozinho no Vazio. No Nada! No Eterno Caos! EU era uma Luz na Escuridão. Sem conhecimento, sem propósito, sem nada para ME relacionar. Era NADA! Mas com poder para criar. Então ME separei em duas partes. Na dualidade primária. No YIN e no YANG. ME dividi várias vezes e criei o Universo e o Mundo."

"EU só queria aprender. Saber. Evoluir. Com MEU mundo criado EU aprendi muito sobre MIM mesmo. Pois era esse MEU objetivo. Saber QUEM EU SOU. De ONDE VIM. Por quê EXISTO. É a pergunta que faço desde o princípio."

"MEU objetivo ao criar o Universo era CONHECER A MIM MESMO. Pois sempre existi no Vazio, e nunca soube o PORQUÊ."

"Mas uma vez criado o mundo, uma vez tendo vencido o Primeiro Passo conhecendo a mim mesmo pela minha criação, e vencido o Segundo Passo entendendo minha própria imperfeição perante a perfeição do Vazio, uma vez que conheci melhor a mim mesmo e entendi minhas limitações, faltava o Terceiro Passo."

"E naquele momento o Terceiro Passo não era Me Lembrar, pois EU tudo sabia. Mas sim ME ESQUECER."

"Então ME programei para esquecer e encarnei em uma de minha próprias criações. E não foi a primeira vez. Fiz isso várias vezes tentando aprender. Até que um dia, finalmente me dei conta. Finalmente percorri de novo o caminho, então Conheci a MIM Mesmo novamente, entendi minha própria limitação, e finalmente ME LEMBREI."

"Agora um novo ciclo está completo. Encerrei minha criação naquilo que alguns chamavam de APOCALIPSE, e reverto o Universo original de volta ao princípio, naquilo que algumas de minhas criações chamavam APOCATÁSTASE, e outros MAHAPRALAYA."

"Aprendi mais sobre MIM mesmo, mas não o suficiente. É preciso começar de novo, criar um novo ciclo. Refazer o Universo para viver mais UM DIA de minha vida. Agora estou desperto. Mas já vou adormecer novamente, e depois acordarei, e de novo e de novo... Pois EU NÃO SOU PERFEITO."

AGORA ME SEPARO DE MIM MESMO MAIS UMA VEZ. E MEU PRIMEIRO CONSELHEIRO É VOCÊ.

Vamos começar de novo?

SIM.

Como será desta vez?

DIFERENTE. MAS SIMILAR. APRENDI MAIS UM POUCO, NÃO COMETEREI OS MESMOS ERROS.

E o que fará dessa vez? Como começará?

BEM... NO PRINCÍPIO É O VERBO. E O VERBO SOU EU!!!
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Autor: Marcus Valerio XR Site: http://www.xr.pro.br/

Obs: O subtítulo deste conto é um trocadilho com a palavra SOLIPSISMO.