quarta-feira, 17 de abril de 2013

Os Arquétipos


Os Arquétipos
Christopher Vogler

"Seja ou não invocado, Deus virá."
 Lema sobre a porta da casa de Carl Jung



Assim que entramos no mundo dos contos de fadas e dos mitos, observamos que há tipos recorrentes de personagens e relações: heróis que partem em busca de alguma coisa, arautos que os chamam à aventura, homens e mulheres velhos e sábios que lhes dão certos dons mágicos, guardiões de entrada que parecem bloquear seu caminho, companheiros de viagem que se transformam, mudam de forma e os confundem, vilões nas sombras que tentam destruí-los, brincalhões que perturbam o status quo e trazem um alívio cômico. Ao descrever esses tipos comuns de personagem, símbolos e relações, o psicólogo suíço Carl G. Jung empregou o termo arquétipos para designar antigos padrões de personalidade que são uma herança compartilhada por toda a raça humana.
Jung sugeriu que pode existir um inconsciente coletivo, semelhante ao inconsciente pessoal. Os contos de fadas e os mitos seriam como os sonhos de uma cultura inteira, brotando desse inconsciente coletivo. Os mesmos tipos de personagem parecem ocorrer, tanto na escala pessoal como na coletiva. Os arquétipos são impressionantemente constantes através dos tempos e das mais variadas culturas, nos sonhos e nas personalidades dos indivíduos, assim como na imaginação mítica do mundo inteiro. Uma compreensão dessas forças é um dos elementos mais poderosos no baú de truques de um moderno contador de histórias.
O conceito de arquétipo é uma ferramenta indispensável para se compreender o propósito ou função dos personagens em uma história. Se você descobrir qual a função do arquétipo que um determinado personagem está expressando, isso pode lhe ajudar a determinar se o personagem está jogando todo o seu peso na história. Os arquétipos fazem parte da linguagem universal da narrativa. Dominar sua energia é tão essencial ao escritor como respirar.
Joseph Campbell falava dos arquétipos como se fossem um fenômeno biológico, expressões dos órgãos de um corpo, parte da constituição de todo ser humano. A universalidade desses padrões é que possibilita compartir a experiência de contar e ouvir histórias. Um narrador instintivamente escolhe personagens e relações que dão ressonância à energia dos arquétipos, para criar experiências dramáticas reconhecíveis por todos. Tomar consciência dos arquétipos só pode aumentar nosso domínio do ofício.

Arquétipos como funções

Quando comecei a lidar com essas idéias, pensava num arquétipo como um papel fixo, que um personagem desempenharia com exclusividade no decorrer de uma história. Quando identificava que um personagem era um mentor, esperava que ele fosse até o fim sendo mentor, e apenas mentor. Entretanto, quando fui trabalhar com os motivos de contos de fadas, como consultor de histórias para a Disney, descobri outra maneira de encarar os arquétipos — não como papéis rígidos para os personagens, mas como funções que eles desempenham temporariamente para obter certos efeitos numa história. Essa observação vem da obra de um especialista russo em contos de fadas, Vladimir Propp, cujo livro Morphology Of The Folktale [Morfologia do conto popular] analisa motivos e padrões recorrentes em centenas de contos russos.
Olhando os arquétipos dessa maneira, como funções flexíveis de um personagem e não como tipos rígidos de personagem, é possível liberar a narrativa. Isso explica como um personagem numa história pode manifestar qualidades de mais de um arquétipo. Pode-se pensar nos arquétipos como máscaras, usadas temporariamente pelos personagens à medida que são necessárias para o avanço da história. Um personagem pode entrar na história fazendo o papel de um arauto, depois trocar a máscara e funcionar como um bufão ou pícaro, um mentor ou uma sombra.

Facetas da personalidade do herói

Outra maneira de encarar os arquétipos clássicos é vê-los como facetas da personalidade do herói (ou do escritor). Os outros personagens representam possibilidades para o herói — boas ou más. Às vezes um herói percorre uma história reunindo e incorporando a energia e os traços de outros personagens. Aprende com eles e vai fundindo tudo até chegar a ser um ser humano completo, que pegou algo de cada um que foi encontrando pelo caminho.
Os arquétipos também podem ser vistos como símbolos personificados das várias qualidades humanas. Como as cartas dos arcanos maiores do taro, representam os diferentes aspectos de uma personalidade humana completa. Toda boa história é um reflexo da história humana total, da condição humana universal de nascer neste mundo, crescer, aprender, lutar para se tornar um indivíduo, e morrer. As histórias podem ser lidas como metáforas da situação humana geral, com personagens que incorporam qualidades universais arquetípicas, compreensíveis para o grupo, assim como para o indivíduo.

Os arquétipos mais comuns e mais úteis

Para quem conta histórias, certos arquétipos são uma espécie de ferramenta indispensável ao ofício. Não é possível contar histórias sem eles. Os arquétipos que ocorrem com mais freqüência nas histórias (logo, os mais úteis para que um escritor conheça) são:

HERÓI - Em termos psicológicos, o arquétipo do Herói representa o que Freud chamou de ego — a parte da personalidade que se separa da mãe, que se considera distinta do resto da raça humana. Em última análise, um Herói é aquele que é capaz de transcender os limites e ilusões do ego, mas, de início, os Heróis são inteiramente ego, se confundem com o ego, o "eu", com aquela identidade pessoal que pensa que é distinta do resto do grupo. A jornada de muitos Heróis é a história dessa separação da família ou da tribo, equivalente ao sentido de separação da mãe, que uma criança vivência.

MENTOR (VELHA OU VELHO SÁBIO) - Na anatomia da psique humana, os mentores representam o self, o deus dentro de nós, o aspecto da personalidade que está ligado a todas as coisas. O ser superior é a parte mais sábia, mais nobre, mais parecida com um deus em nós. Como o Grilo Falante, na versão da Disney para o Pinóquio, o ser atua como uma consciência, para nos guiar na estrada da vida quando não houver uma Fada Azul ou um Gepeto por perto, para nos proteger e nos mostrar o que é certo ou errado.

GUARDIÃO DE LIMIAR -  Esses Guardiões podem representar os obstáculos comuns, que todos nós temos que enfrentar no mundo que nos cerca: azar, preconceitos, opressão ou pessoas hostis, como a garçonete que se recusa a atender ao pedido simples de Jack Nicholson em “Melhor é impossível”. Contudo, num nível psicológico mais profundo, eles representam nossos demônios internos: as neuroses, cicatrizes emocionais, vícios, dependências e autolimitações que seguram nosso crescimento e progresso. Parece que, cada vez que a gente tenta fazer uma grande mudança na vida, esses demônios íntimos erguem-se com toda a força, não necessariamente para nos deter, mas para testar e verificar se estamos realmente determinados a aceitar o desafio da mudança.

ARAUTO - Os Arautos desempenham função psicológica importante, ao anunciarem a necessidade de mudança. Algo no nosso íntimo sabe quando estamos prontos para mudar, e nos envia uma mensagem. Pode ser uma figura de sonho, uma pessoa real ou uma nova idéia que encontramos. Em Campo dos sonhos, é a Voz misteriosa que o herói ouve, a dizer: "Se você o construir, eles virão." O Chamado pode vir de um livro que lemos, ou de um filme que vimos. Mas algo dentro de nós é tocado, como um sino que leva um golpe, e as vibrações resultantes espalham-se por nossa vida, até que a mudança seja inevitável.

CAMALEÃO - Um propósito psicológico importante do arquétipo do Camaleão é expressar a energia do animus e da anima, termos usados pelo psicólogo Carl Jung. O animus é o nome que Jung dá ao elemento masculino no inconsciente feminino, ao emaranhado de imagens positivas e negativas de masculinidade nos sonhos e fantasias de uma mulher. A anima é o elemento feminino correspondente no inconsciente masculino. Segundo essa teoria, as pessoas têm um conjunto completo tanto de qualidades femininas como de masculinas, e ambas são necessárias para a sobrevivência e o equilíbrio interno.

SOMBRA - A Sombra pode representar o poder dos sentimentos reprimidos. Um trauma profundo ou uma culpa podem crescer quando exilados para a escuridão do inconsciente, e emoções escondidas ou negadas podem se transformar em algo monstruoso que quer nos destruir. Se o Guardião de Limiar representa neuroses, o arquétipo da Sombra representa as psicoses que não apenas nos prejudicam, mas ameaçam nos destruir. A Sombra pode, simplesmente, ser aquela nossa parte obscura contra a qual estamos sempre lutando, em nosso combate contra os maus hábitos ou velhos medos. Essa energia pode ser uma força interna poderosa, com vida própria e com seu próprio sistema de interesses e prioridades. Pode ser uma força destrutiva, principalmente se não for reconhecida, enfrentada e trazida à luz.

PÍCARO - Os Pícaros cumprem várias funções psicológicas importantes. Podam os egos grandes demais, trazem heróis e platéias para a real. Ao provocarem nossas gargalhadas saudáveis, ajudam-nos a perceber nossos vínculos comuns, apontando as bobagens e a hipocrisia. Acima de tudo, introduzem mudanças e transformações sadias, muitas vezes chamando a atenção para o desequilíbrio ou o absurdo de uma situação psicológica estagnada. São os inimigos naturais do status quo. A energia picaresca pode se manifestar por meio de acidentes enganosos ou lapsos de língua que nos alertam para a necessidade de mudança. Quando estamos nos levando demasiadamente a sério, a parte Pícaro de nossa personalidade pode surgir de repente para nos devolver a necessária perspectiva.

É evidente que existem muitos outros arquétipos — tantos quantas são as qualidades humanas que podem ser dramatizadas numa história. Os contos de fadas estão repletos de figuras arquetípicas: o Lobo, o Caçador, a Mãe Boa, a Madrasta Má, a Fada-Madrinha, a Bruxa, o Príncipe ou Princesa, o Estalajadeiro Cobiçoso e assim por diante, que desempenham funções altamente especializadas. Jung e outros identificaram muitos arquétipos psicológicos, como o Puer Aeternus, ou o eterno menino, que pode ser encontrado em mitos como o do sempre-jovem Cupido, em histórias de personagens como a de Peter Pan, e na vida, como homens que nunca querem crescer.
Determinados gêneros de histórias modernas desenvolvem seus próprios personagens especializados, como a "Prostituta de Bom Coração", ou o "Tenente Arrogante de West Point" nos filmes de faroeste, ou os pares de "Policial Bom e Policial Mau" nos policiais, ou o "Sargento Durão, mas Justo", nos filmes de guerra.
Entretanto, esses são apenas variantes e refinamentos dos arquétipos básicos que vamos discutir nos capítulos seguintes. Esses que discutiremos são os padrões mais fundamentais, a partir dos quais se configuram todos os outros, para se adaptarem às necessidades específicas de diferentes histórias e gêneros.

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Questões
1 -  Todo mundo é o herói. Num filme, livro ou história (de qualquer natureza)  que nos cativa sempre identificamo-nos com o herói/protagonista, mesmo que ele não seja um herói como o Superman, paladino da ordem e da justiça. Aliás, temos mais facilidade de aceitar heróis que vivem situações cotidianas e são imperfeitos, sofrendo e fazendo sofrer, amando e fazendo amar. O Spiderman, por exemplo, tem uma popularidade muito mais alta que o alter ego de Clark Kent. Se sua vida fosse um livro (ou filme) quem seriam os personagens principais da obra de sua existência? Associe-os com os arquétipos citados pelo texto 1. Não precisa citar nomes reais, se quiser invente nomes sugestivos para os personagens. Faça um pequeno resumo da biografia de cada um destes protagonistas.

2 -  Crie um pequeno texto escolhendo um dos personagens arquetípicos da questão anterior e relate como foi a primeira vez que o conheceu. Obs.: Seria mais interessante que fizesse uma história fantástica como metáfora, ou seja, não relate apenas eventos que ocorreram em sua vida, mas crie, transforme, modifique, dê asas a sua imaginação e construa uma história diferente... Podendo ser até uma história de super-heróis... Por que não? (Mínimo 40 linhas - digitado)

3 -  Olhando não apenas para a sua história como um micro-universo, mas olhando para a história do cosmo, podemos encontrar diversos arquétipos universais. A existência terrestre está recheada de arquétipos, não apenas aqueles que você encontrou no texto de Christopher Vogler. Quais arquétipos, não citados pelo texto, você julga importante? Cite pelo menos 3 (três) e descreva-os brevemente.

4 -  Quando lemos uma história fictícia sabemos que seus personagens não são reais, todavia suas existências podem influir em nossa experiência como humanos. Você pode até achar que não, mas às vezes a barreira que separa a ficção da realidade se afina a tal ponto que não conseguimos diferenciar uma da outra. Romances de ficção científica e filmes já idealizaram sociedades futuras que a população tem ao seu dispor aparatos tecnológicos que podem agir na psique diretamente, fazendo o “usuário” mergulhar fundo em suas fantasias. São inúmeros filmes que exploraram este paradigma, por exemplo, Matrix, eXistenZ e 13º. Andar entre outros, mas recentemente pesquisadores do Darpa, departamento de defesa norte-americano, o mesmo que “criou a internet”, conseguiram através de indução magnética inserir informações auditivas e visuais na mente de voluntários. Pode parecer pouco, pois conseguiram apenas inserir palavras e som primitivos, mas tal tecnologia abre portas para a criação de um mundo de realidade virtual, indistinguível da real. E à medida que essa fantasia ganhar mais adeptos talvez o que chamaremos de realidade não cheguem nem perto do conceito que temos hoje. Escreva um texto de modalidade redacional a sua escolha que explore melhor essa possibilidade ressaltando a influência da ficção sobre a realidade. (Mínimo 10 linhas – digitado)